quarta-feira, 22 abril, 2026

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Crônica: Sofrer e seguir

Por: Sérgio Sant’Anna*

A morte chega sempre sem pedir licença, como um narrador que interrompe a história no auge do enredo. Foi assim com o basquete brasileiro, ao perder Oscar Schmidt — o “Mão Santa” — cuja trajetória sempre pareceu maior que o próprio tempo. E, no mesmo compasso trágico, a vida testou seu irmão, Tadeu Schmidt, que, mesmo diante da perda, seguiu adiante, apresentando o Big Brother Brasil. Em outro palco, não menos simbólico, Ana Paula Renault também enfrentou o luto ao perder o pai e, ainda assim, continuar jogando. Entre a dor íntima e o espetáculo público, o ser humano revela sua mais intrigante contradição: sofrer e seguir.

Segundo Sigmund Freud, em seu ensaio “Luto e Melancolia”, o luto é um processo necessário, no qual o indivíduo lentamente desinveste sua energia emocional do objeto perdido. No entanto, esse movimento não se dá de forma linear nem uniforme. Há quem precise parar, silenciar, recolher-se; há quem, paradoxalmente, encontre no movimento uma forma de não sucumbir. Continuar a jogar, apresentar, falar — não é negar a morte, mas tentar reorganizar a vida em torno de um vazio recém-instalado.

Talvez seja isso que Albert Camus chamaria de revolta diante do absurdo. Se a morte é inevitável e sem sentido último, viver passa a ser um ato de resistência. No instante em que Tadeu sobe ao palco ou Ana Paula entra em quadra, não estão apenas cumprindo uma função social; estão, de certo modo, afirmando a vida contra o silêncio definitivo da morte. Como em “O Mito de Sísifo”, continuar empurrando a pedra é, em si, um gesto de coragem.

Por outro lado, Elisabeth Kübler-Ross nos lembra que o luto percorre estágios — negação, raiva, barganha, depressão e aceitação —, ainda que não necessariamente nessa ordem. Continuar a agir logo após a perda pode ser, para alguns, um mecanismo de defesa, uma forma de negar o impacto imediato da ausência. Mas também pode ser uma homenagem silenciosa, um modo de dizer ao outro que sua existência ainda reverbera em cada gesto cotidiano.

Há, ainda, uma dimensão social que não se pode ignorar. Figuras públicas vivem sob o olhar constante, e sua dor, muitas vezes, não lhes pertence por completo. O espetáculo não espera. O jogo começa no horário marcado. E, nesse cenário, a escolha de continuar pode ser tanto uma imposição quanto uma decisão íntima. Como diria Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos, nos quais até o luto precisa adaptar-se à fluidez das exigências contemporâneas.

No fim, a morte não é apenas o fim de uma biografia, mas um espelho que nos obriga a refletir sobre a própria vida. Continuar a jogar, a apresentar, a existir, não diminui a dor — apenas a desloca. Talvez seja essa a sua importância: lembrar-nos de que o tempo é finito e, por isso mesmo, cada gesto importa. Entre lágrimas contidas e aplausos inevitáveis, o ser humano segue — não porque esquece, mas porque, apesar de tudo, ainda há vida a ser vivida.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.