sábado, 15 agosto, 2026
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Crônica: Quando as palavras já não dizem nada

Por: Sérgio Sant’Anna*

Havia um tempo em que uma discussão começava com uma pergunta e terminava, quase sempre, com outra. Hoje, começa com uma opinião e termina com um bloqueio. Ninguém pergunta mais “por quê?”. Pergunta-se apenas “de que lado você está?”. E, assim, a conversa, que deveria ser ponte, transforma-se em muro. Talvez este seja um dos sintomas mais silenciosos da nossa modernidade: estamos cercados de palavras, mas cada vez mais distantes do significado delas.

Percebo isso na sala de aula. Entrego aos alunos um texto de poucas linhas, aparentemente simples, e peço que expliquem o que o autor quis dizer. Alguns leem as palavras, mas não encontram o pensamento. Outros encontram no texto aquilo que já desejavam encontrar antes mesmo de lê-lo. Há ainda os que esperam que a resposta esteja escondida em alguma alternativa, como se interpretar fosse descobrir uma senha. E então me pergunto: em que momento deixamos de ensinar que ler é, antes de tudo, pensar?

Paulo Freire talvez nos respondesse com uma de suas ideias mais poderosas: a leitura da palavra não pode estar separada da leitura do mundo. Para ele, ler ultrapassa a decodificação das letras; exige compreender a realidade, relacionar texto e contexto, questionar, desconfiar e perguntar. Talvez esteja aí uma das grandes tragédias do nosso tempo: há pessoas que conseguem ler uma frase inteira, mas não conseguem interpretar uma situação; leem uma notícia, mas não distinguem fato de opinião; leem uma postagem, mas não percebem a manipulação escondida atrás dela.

E o problema não termina nos alunos. Ele atravessa os corredores das escolas, chega às mesas de jantar, invade as reuniões de família, os grupos de mensagens e as redes sociais. Pais discutem com filhos sem ouvir o que eles disseram. Filhos respondem aos pais antes de compreender a pergunta. Adultos compartilham textos que não leram. Pessoas comentam manchetes sem conhecer as notícias. A sociedade parece ter desenvolvido uma curiosa habilidade: responder rapidamente àquilo que não compreendeu.

Sócrates, na Antiguidade, fazia da pergunta um instrumento de conhecimento. Sua maiêutica nascia justamente da disposição para reconhecer que talvez não soubéssemos tanto quanto imaginávamos. Hoje, entretanto, parece haver uma epidemia de certezas. Todos têm opinião sobre tudo. Poucos têm argumentos. A opinião tornou-se uma espécie de documento de identidade: “eu penso assim” passou a significar “logo, estou certo”. Esquecemos que pensamento não é sinônimo de convicção.

Descartes desconfiou das certezas e fez da dúvida um método. Montaigne transformou a própria experiência em matéria de reflexão. Nietzsche martelou os ídolos de seu tempo. Hannah Arendt investigou a relação entre pensamento, responsabilidade e vida pública. Em diferentes épocas, esses pensadores compreenderam algo que nossa pressa parece ter esquecido: pensar dá trabalho. Interpretar dá trabalho. Escutar dá trabalho. Construir um argumento dá muito mais trabalho do que simplesmente repetir uma frase que alguém publicou na tela do celular.

Talvez por isso a literatura seja tão necessária. O Realismo de Machado de Assis nos ensinou a desconfiar das aparências; o Modernismo de Mário e Oswald de Andrade rompeu modelos e provocou o pensamento; o Simbolismo buscou aquilo que estava além da superfície; o Romantismo fez da subjetividade uma forma de olhar o mundo. Cada movimento literário, à sua maneira, nos ensinou que uma obra não termina quando chegamos ao ponto final. O texto continua dentro de quem o lê.

Nas artes visuais, o mesmo acontece. O Impressionismo ensinou que a realidade pode mudar conforme a luz e o instante. O Cubismo, com Picasso e Braque, desmontou a perspectiva tradicional e mostrou que um objeto poderia ser visto simultaneamente por diferentes ângulos. O Surrealismo mergulhou no inconsciente para revelar aquilo que a razão frequentemente escondia. Talvez a arte tenha compreendido antes de nós que não existe apenas uma maneira de olhar. O problema é que, hoje, queremos enxergar o mundo por uma única janela — e, de preferência, aquela que confirma nossas próprias certezas.

Na música popular brasileira, os compositores também nos ensinaram a interpretar o cotidiano. Chico Buarque fez da canção uma lente para enxergar as contradições sociais. Caetano Veloso transformou a linguagem em provocação. Gilberto Gil aproximou tradição e modernidade. Belchior cantou a angústia de uma juventude diante de um país em transformação. Djavan fez da palavra uma experiência sensorial. A música, quando verdadeiramente ouvida, também exige leitura: há metáfora, ironia, silêncio, contexto e intenção. Não basta escutar a melodia; é preciso escutar o que a palavra está tentando dizer.

O curioso é que vivemos justamente na chamada Era da Informação. Temos bibliotecas inteiras dentro de um aparelho que cabe na palma da mão. Nunca foi tão fácil consultar dados, comparar fontes, conhecer autores e descobrir ideias. E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil convencer alguém a ler até o fim. A velocidade transformou-se em valor. Queremos respostas instantâneas para perguntas complexas. Queremos vídeos de poucos segundos para explicar séculos de História. Queremos frases prontas para problemas que exigiriam reflexão.

Então, quando um estudante não compreende um texto simples, talvez não devamos apenas perguntar por que ele não aprendeu. Precisamos perguntar que tipo de relação com a palavra a sociedade está ensinando a ele. Afinal, se em casa a leitura é tratada como obrigação, se na escola o texto aparece apenas como instrumento para uma prova e se, fora dela, a informação é consumida em fragmentos, como esperar que o jovem desenvolva uma interpretação profunda? A dificuldade do aluno pode ser também o espelho de uma cultura que desaprendeu a permanecer diante de uma ideia.

E existe uma consequência ainda mais grave: quem não interpreta bem dificilmente argumenta bem. Sem compreender a ideia do outro, não há diálogo; há apenas reação. Sem repertório, não há argumento; há repetição. Sem escuta, não há debate; há disputa. O resultado está diante de nós: pessoas não conversam para compreender, conversam para vencer. Não procuram uma possibilidade de pensamento; procuram uma oportunidade de provar que o outro está errado.

Talvez seja por isso que ensinar Língua Portuguesa seja muito mais do que ensinar gramática. Ensinar a ler é ensinar alguém a desconfiar da primeira impressão, reconhecer uma ironia, perceber uma intenção, identificar uma tese, relacionar ideias, distinguir argumento de opinião e, sobretudo, aceitar que um texto pode nos obrigar a pensar diferente. Paulo Freire compreendia o diálogo como exercício de curiosidade, questionamento e abertura ao outro; nesse sentido, interpretar é também uma forma de democracia.

No fim da aula, às vezes olho para meus alunos e penso que talvez a grande batalha educacional do século XXI não seja simplesmente fazer com que eles leiam mais, mas fazer com que leiam melhor. Que aprendam a parar diante das palavras. Que saibam perguntar o que elas escondem, o que revelam e a serviço de quem foram escritas. Que descubram que um livro não é apenas um objeto sobre uma mesa, mas uma conversa iniciada por alguém que talvez tenha vivido há séculos. E que compreendam, finalmente, que interpretar o texto é uma maneira de interpretar a própria existência.

Porque uma sociedade que perde a capacidade de interpretar começa, pouco a pouco, a perder a capacidade de dialogar. E quando já não conseguimos compreender o que o outro diz, qualquer diferença parece uma ameaça. Talvez a modernidade tenha nos dado velocidade demais e silêncio de menos; informação demais e reflexão de menos; vozes demais e escuta de menos. Por isso, talvez seja urgente voltar ao princípio: abrir um livro, ler devagar, fazer uma pergunta e admitir, com a humildade de Sócrates, que ainda não sabemos. Quem sabe, nesse pequeno gesto, descubramos novamente que compreender o outro é uma das formas mais bonitas de compreender o mundo.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.