Por: Sérgio Sant’Anna*
Lembrei-me dos primeiros livros lidos. Sim, aquelas leituras que realizamos com a certeza de que a sapiência dominará o nosso cérebro. Porém, a coleção Vaga-lume foi aquela que me pegou. Abocanhou-me. Cooptou-me, lembrando Fernando Henrique Cardoso, para o universo literário. Maria José Dupré foi aquela que me fez chorar ao ler “Éramos seis”, já tinha lido “A ilha perdida” da mesma autora. Fascinante. Com o passar dos anos descobri a cronista Raquel de Queiroz e suas análises do cotidiano sendo tipografada às quartas-feiras no periódico, “O Estado de S. Paulo”, mas foi Lygia quem me fez adentrar pelas narrativas ficcionais com seus geniais contos. Ainda me questionam sobre Clarice. Confesso que gostei, todavia é por Macabeia que meu coração bate… Cecilia, Adélia, Marina fazem parte desse meu universo leitor, porém foi com Martha Medeiros que as minhas crônicas ganharam mais vigor. Aprendi com a então articulista do jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, que a crônica tem que nos fazer apaixonar. E com sua conterrânea, Claudia Tajes ganhei mais elementos subjetivos para dilatar minhas análises cotidianas, mas confesso que até hoje não tenho a coragem, como Cláudia, de fazer uma crônica daquele calibre.
Interessante que o tempo acaba sendo o nosso termômetro, principalmente quando a retrospectiva é acionada, e é ali, nesse retorno ao passado, que notamos quantas escritoras deixamos de ler. Lembro-me que pelos mais renomados cursinhos portoalegrenses, defronto-me com as leituras obrigatórias UFRGS, e neste vestibular, a redação necessita de incrementos dessas obras, portanto, tinha que lê-los e transformá-los em repertório sociocultural a ser passado aos meus alunos vestibulandos. E logo ali estava Maria Firmina de Jesus e seu genial romance, “Úrsula”. Uma mulher negra, silenciada durante o ´século XIX em meio aos escritores românticos. Invisibilizada por ser mulher. E sua importante obra sendo sucumbida pela cultura machista predominante até os dias hodiernos. Vi Carolina Maria de Jesus retornar aos bancos escolares, difundir-se nos cursinhos pré-vestibulares e depois voltar a ser um clássico. E até hoje fazer parte do meu acervo pessoal e estar presente em minhas aulas através dos meus discursos na elaboração de argumentações para o texto dissertativo-argumentativo. “Quarto de despejo” foi e sempre será a luz para esses dias tão fatídicos pelos quais nosso país atravessa. Como diria Carolina: “Para o Brasil dar certo é necessário que tenhamos um presidente da República que já tenha passado fome”. Conceição Evaristo me encanta com “Olhos d´água” e sua escrevivência.
Neste ano de 2025 fui convidado para participar de um Clube de Leitura, agora denominado “Antígonas”., este composto só de mulheres, e desde março com este fruto dentre as mulheres…Confesso que ali aprendi muitíssimo, principalmente porque estou diante de seres humanos potentes, dotadas, elas, dos mais embasados argumentos. Advogadas, bióloga, arquitetas, psicanalistas, professoras, veterinárias etc. Argumentos que se fundem em opiniões e trazem à tona escritoras. Conheci Elena Ferrante, retornei ao universo de Clarice Lispector, encantei-me por Hélène Cixous, Hilda Hilst e mais se apresentarão por esse universo transformador. Uma realização que nos retira da nossa zona de conforto. Uma visão que aparece diante da nebulosidade de escritores masculinos. Um momento para que possamos superar essa barreira de apenas consagrarmos escritores homens. Ainda na semana passada retratava em uma live com um ex-aluno, hoje graduado na área de saúde mental, sobre a a história sociocultural da violência no Brasil e suas origens, e dali falávamos dessa nossa cultura machista e que nos impede da busca por outras fontes de conhecimento. Principalmente este que barra a mulher em busca de sua liberdade, sua ascensão, o galgar dos seus degraus. Logo, a necessidade de que tenhamos mais escritoras sendo semeadas pelos bancos escolares. Tornando-as obrigatórias diante da leitura adolescente.
Garanto, se o universo feminino tornar-se leitura obrigatório tão logo teremos um país de leitores críticos, questionadores, dispostos a lutarem por uma causa que é nossa, ou seja, de toda sociedade. Leiam mais mulheres!



