quinta-feira, 30 abril, 2026

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Crônica: O que você faz?

Por: Gustavo Antonio Ascencio*

Fiz essa pergunta a um colega enquanto esmurrava o painel do seu carro. Talvez estivesse sendo um pouco rude, afinal ele me dava uma bem-vinda carona na volta do trabalho, mas não pude evitar. Precisava demonstrar o quão contundente é esta indagação ou ao menos a forma como eu costumo proferi-la. Ele me dava algumas respostas a cada vez que a repetia. Dou aulas. Não me satisfiz. Torço pro Parmera! Encarei-o com enfado. Sou o marido da Joana. Encostei a testa no vidro. Eu… sei lá, cara. Agora sim estamos chegando em algum lugar!

Não sabia muito bem que esta inquietação existia em mim até ler Memórias do Subsolo, de Dostoiévski. Nessa obra, uma paulada existencialista, temos este narrador que divide os homens em duas categorias: os de ação e os de consciência hipertrofiada. Trocando em miúdos, o primeiro tipo seria o homem comum, que possui certezas suficientes para se localizar no mundo, entender completamente seu papel nele, aceita a lógica da sociedade e, em sua própria racionalidade, faz… coisas (desculpe-me, mas preciso apelar para o maior de todos os hiperônimos aqui). Já a segunda categoria, a qual pertence, é composta por pessoas que, deparando-se com toda essa lógica e racionalidade do mundo, sentem-se deslocadas, mais!, profundamente ofendidas e se recusam a acreditar que tudo já está posto, entendido, calculado, definido; porém, como não fazem parte do mundo das ações, angustiam-se e, no final das contas, não se tornam nada.

Para este cronista da escuridão, apenas os parvos e limitados sabem quem são e o que fazem, pois confundem suas causas secundárias como as primeiras. Por exemplo, quando ofendidos, encontram a justiça na simples vingança — sendo assim, viver se torna simples. Os de consciência hipertrofiada, por sua vez, estão fadados a não possuírem caráter algum, tornam-se nada por se recusarem às abstrações sociais que nos rodeiam. Ao passo que estes, quando ultrajados, não encontram justiça alguma no revide e o que fazem? Guardam rancor e, como camundongos, voltam para a sua toca, voltam para o subsolo.

Basta de russos, acabo de citar um na crônica passada e agora outro, por enquanto está bom. Mas a verdade é que continuo lá, dentro daquele carro, esmurrando o painel e, como meu colega, sem saber responder a essa pergunta. Clichês são clichês por uma razão e a ignorância parece ser uma benção de fato. Antes de conhecer esse livro, usava o termo “anestesia”, devo ter citado ele um milhão de vezes em terapia. Acredito que todos nós, em maior ou menor escala, estejamos todos anestesiados. Às vezes, alguns de nós, camundongos, colocamos o nariz para fora da toca e nos revoltamos mesmo. Porque é preciso, porque, quem sabe?, isso seja o mais genuíno que consigamos alcançar nessa vida. Depois voltamos para a dinâmica de gato e rato.

Desafio aos que me leem repetirem essa mesma pergunta a si mesmos, de preferência num domingo à tarde, com a tv ligada ou logo após alguns bons minutos passando o dedo em uma tela enquanto assistia a vídeos curtos.

O que você faz?

Desconfie das primeiras respostas, elas nunca serão sinceras. Assim que as palavras começarem a soar estranhas, desconfie delas do mesmo modo. Desconfie de tudo. Sinta essa revolta ao menos uma vez na vida. Tenha sangue, sabe?

*Gustavo Antonio Ascencio é escritor e professor formado em letras na USP.