sexta-feira, 17 abril, 2026

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Crônica: Nunca se precisou tanto de professores: sem competição com algoritmos, mas para humanizar o conhecimento

Por: Sérgio Sant’Anna*

Naquela manhã comum — dessas em que o mundo parece girar no automático —, um professor entrou em sala carregando mais do que livros. Trazia consigo aquilo que não se mede em páginas: a delicada tarefa de provocar pensamentos.

Há quem diga que ensinar é transmitir conteúdos. No entanto, como já sugeria a tradição filosófica desde Sócrates, educar é, antes de tudo, um exercício de parto: a maiêutica. O professor não deposita saberes; ele os desperta. Em um tempo em que as respostas estão a um clique de distância, talvez sua função mais nobre seja ensinar a formular perguntas — e, sobretudo, a duvidar.

Nietzsche, em sua crítica à massificação do pensamento, alertava para os perigos de uma educação que apenas forma rebanhos. Em contrapartida, o verdadeiro educador seria aquele que instiga a singularidade, que convida o aluno a tornar-se aquilo que é. Nesse sentido, o professor não molda: ele revela. Não impõe caminhos: ilumina possibilidades.

A literatura, por sua vez, há muito reconhece essa figura quase invisível e, ao mesmo tempo, essencial. Em tantas narrativas, o mestre aparece não como protagonista, mas como aquele que transforma o destino do outro. Como nas entrelinhas de Guimarães Rosa, em que aprender é sempre atravessar — “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. E quem caminha ao lado, muitas vezes em silêncio, é o professor.

Na música, essa presença também ecoa. Seja na delicadeza poética de canções que exaltam o saber como libertação, seja nos versos que denunciam a ignorância como forma de opressão, a figura do educador aparece como resistência. Ensinar, afinal, é um ato profundamente político — no sentido mais humano do termo: formar sujeitos capazes de ler o mundo e, quem sabe, transformá-lo.

Sob a lente da psicanálise, o professor ocupa ainda outro lugar: o do sujeito suposto saber, como diria Lacan. É aquele em quem o aluno deposita expectativas, angústias e desejos de compreensão. Ensinar, portanto, não é apenas lidar com conteúdos, mas com subjetividades. Cada explicação carrega afetos; cada silêncio, significados. O professor, muitas vezes sem perceber, atua como mediador entre o mundo interno e o externo de seus alunos.

E, no entanto, em meio à velocidade das telas, à efemeridade das informações e à aparente autonomia das máquinas, sua presença pode parecer, para alguns, dispensável. Ledo engano. Nunca se precisou tanto de professores. Não para competir com algoritmos, mas para humanizar o conhecimento. Para lembrar que aprender não é acumular dados, mas construir sentido.

Ao final daquela aula comum, nada extraordinário parecia ter acontecido. Nenhum aplauso, nenhuma epifania coletiva. Apenas um olhar mais atento aqui, uma pergunta inesperada ali. Mas é justamente assim que o professor opera: no quase invisível. Como quem planta árvores sob cuja sombra talvez nunca se sente.

E ainda assim, insiste. Porque sabe — talvez mais do que ninguém — que é na educação que o mundo, silenciosamente, se reinventa.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.