“Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo” (Admirável mundo novo, Aldous Huxley)
Por: Sérgio Sant’Anna*
Há dias em que acordo com a sensação incômoda de que o mundo já foi escrito antes de mim. Não em poesia, mas em advertência. Caminho pelas ruas e percebo rostos curvados sobre telas luminosas, como se todos estivéssemos sob a vigilância invisível de um “Grande Irmão” reinventado, não mais imposto, mas aceito com docilidade. Lembro-me, então, das páginas de 1984, em que a liberdade era uma ficção cuidadosamente apagada, e me pergunto se a nossa, hoje, não é apenas uma ilusão bem iluminada. Afinal, quando a vigilância se torna hábito, já não é necessário o controle explícito — ele se infiltra no cotidiano como um silêncio que ninguém ousa quebrar.
Noutras ocasiões, ao observar as relações humanas mediadas por interesses e conveniências, recordo-me de A Revolução dos Bichos. Não há mais porcos discursando em celeiros, mas há vozes que prometem igualdade enquanto reorganizam privilégios. A retórica se sofisticou, é verdade, porém a essência permanece: alguns continuam mais iguais do que outros. Nesse cenário, a crítica de Karl Marx à estrutura de poder ressurge com vigor, lembrando-nos de que a história não se repete por acaso, mas por negligência. E talvez sejamos nós, distraídos em nossas rotinas, os verdadeiros cúmplices dessa repetição.
Há também um certo conforto anestesiante que me inquieta profundamente. Penso em Admirável Mundo Novo e na felicidade fabricada, nos prazeres superficiais que substituem o pensamento crítico. Hoje, não precisamos de uma substância como o “soma”; temos distrações suficientes para evitar qualquer mergulho mais profundo em nós mesmos. Como diria Theodor Adorno, a indústria cultural transforma tudo em mercadoria, inclusive a consciência. E assim seguimos, consumindo conteúdos que nos aliviam, mas raramente nos transformam, como se pensar fosse um esforço desnecessário em tempos de excesso de estímulos.
E quando penso na relação com o conhecimento, não posso deixar de lembrar Fahrenheit 451. Não queimamos mais livros em praças públicas — ao menos não com fogo visível —, mas há um desinteresse crescente pela leitura que produz um efeito semelhante. Livros esquecidos nas estantes, substituídos por fragmentos rápidos e superficiais, indicam uma sociedade que prefere o imediato ao essencial. Michel Foucault já nos alertava sobre as formas sutis de controle, e talvez a mais eficaz delas seja justamente aquela que nos convence de que não precisamos mais questionar. Afinal, quem não lê, dificilmente contesta.
No entanto, entre todas essas sombras distópicas, ainda há uma centelha de esperança. Talvez resida justamente na consciência desse processo, no desconforto que nos faz refletir. Hannah Arendt falava da importância do pensamento como forma de resistência, e é nisso que me agarro. Porque, embora o mundo pareça, por vezes, uma colagem dessas obras inquietantes, ainda somos capazes de interromper o roteiro. Basta que voltemos a olhar ao redor — e para dentro — com mais atenção. Quem sabe, assim, consigamos escrever um futuro que não precise mais ser previsto por distopias.



