Por: Sérgio Sant’Anna
Era uma terça-feira abafada quando ouvi, pela primeira vez, a doutora Tatiana falar sobre a misteriosa polilaminina. Não havia filtros, cortes estratégicos ou trilha sonora envolvente como nos vídeos das influencers que dominam as redes sociais; havia, sim, um microscópio, uma lâmina delicadamente posicionada e a convicção serena de quem escolheu a ciência como modo de vida. Enquanto o mundo parecia girar ao ritmo dos “likes”, ela se debruçava sobre proteínas invisíveis aos olhos apressados.
Bióloga por vocação e resistência, a doutora Tatiana descrevia a polilaminina — proteína relacionada à matriz extracelular e aos processos de regeneração celular — com o mesmo encantamento com que um poeta descreve o mar. Ao ouvi-la, lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade e de sua capacidade de encontrar poesia na pedra do caminho. Para Tatiana, a pedra era microscópica, mas igualmente desafiadora: compreender como pequenas estruturas sustentam a complexidade da vida.
Em contraste, as influencers digitais surgiam na tela do celular, prometendo fórmulas rápidas para a longevidade e para a “vida saudável em sete passos”. Tatiana, por sua vez, falava em anos de pesquisa, em ética científica e em protocolos rigorosos. Havia nela algo de socrático, evocando a máxima de Sócrates — “só sei que nada sei” — como princípio metodológico.
Diferentemente da certeza performática que impera nas redes, sua fala era permeada por hipóteses, revisões e humildade epistemológica. Certa vez, ao explicar a importância da polilaminina na regeneração tecidual, Tatiana comparou a célula a uma casa em permanente reforma. A imagem fez-me recordar as reflexões de Heráclito sobre o fluxo contínuo: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, assim como nenhuma célula permanece idêntica a si mesma. A biologia, ali, dialogava com a filosofia antiga, demonstrando que a ciência também é uma forma de pensar o tempo e a mudança. Enquanto isso, as influencers seguiam anunciando colágenos milagrosos e dietas revolucionárias, muitas vezes apropriando-se de termos científicos para revesti-los de glamour. Tatiana observava esse fenômeno com preocupação, lembrando que a vulgarização sem rigor pode transformar conhecimento em mercadoria. Seu posicionamento fazia ecoar as críticas de Theodor Adorno à indústria cultural, na qual até mesmo a ciência pode ser convertida em espetáculo.
No entanto, não havia amargura em sua postura, mas uma persistente esperança. Ao citar Hannah Arendt, afirmava que pensar é um ato de responsabilidade. Assim, sua pesquisa sobre a polilaminina não era apenas técnica; era também ética, pois implicava escolhas sobre financiamento, aplicação e divulgação dos resultados. Entre tubos de ensaio e relatórios acadêmicos, ela parecia tecer uma resistência silenciosa à superficialidade contemporânea.
Ao final daquele encontro, percebi que a doutora Tatiana, com sua polilaminina e sua discrição, encarnava uma forma de influência menos ruidosa, porém mais profunda. Se as redes sociais produzem celebridades instantâneas, a ciência produz transformações graduais, quase invisíveis — como a própria proteína que ela estuda. E, tal qual nos romances de formação, compreendi que o verdadeiro protagonismo talvez não esteja nos holofotes, mas na constância de quem escolhe compreender o mundo antes de anunciá-lo.



