terça-feira, 17 março, 2026

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Artigo: Ressaca da quarta-feira de cinzas

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Em Taquaritinga, não são raros os posts inflamados nas redes sociais a proclamar, com absoluta convicção – e quase nenhum traço de análise empírica – que “o Brasil vai virar Venezuela” ou “Cuba”. A construção retórica funciona como um grito no vazio, um espelho da ansiedade local, mais do que um indicador do futuro nacional.

A realidade, porém, atravessa a Rodovia Thirso Micali como um trem que ninguém parece observar: ela não para nos discursos, escorre pelos números.

Taquaritinga, cidade de cerca de 53 mil habitantes no interior de São Paulo, tem sua economia mais ancorada em serviços e comércio – 58,7 % do valor adicionado – com participação menor da indústria e da agropecuária, e ainda um PIB per capita inferior às médias regional e estadual. Embora se note geração líquida de empregos formais, o ritmo é modesto e a abertura de empresas ficou aquém de outras cidades vizinhas em 2025.

Nas praças vizinhas, o retrato é outro. Matão e Araraquara figuram com presença econômica mais contundente na região. Em ranking de competitividade municipal de 2025, Matão ficou à frente de Araraquara entre 418 municípios com mais de 80 mil habitantes, um sinal de bases estruturais mais robustas para atrair investimento e gerar renda.

Araraquara, por sua vez, sustenta um mercado de trabalho mais ativo e uma atividade empresarial mais pujante: dados recentes mostram abertura robusta de novas firmas e um tecido econômico em expansão no fim de 2025.

Aqui reside a primeira alvorada da ressaca: a comparação não é mera retórica populista, mas uma ferida aberta na dinâmica produtiva.

Enquanto Araraquara fala em saldo positivo de atividade econômica e novas empresas, Taquaritinga enfrenta desafios em traduzir potencial de consumo e diversidade comercial em crescimento sustentado de empregos e oportunidades.

O resultado é que, no imaginário local, latentes frustrações – sociais, econômicas e políticas – são projetadas em discursos simplistas sobre “ameaças externas”. Venezuela, Cuba, socialismo, comunismo: fantasmas parecem oferecer explicações mais imediatas do que o estudo dos números, a observação de tendências ou a imaginação de saídas. Mas a verdadeira ameaça para a cidade não reside em “Cuba”, e sim na incapacidade de se conectar com o que pulsa ao seu redor.

Não se trata de demonizar políticas públicas de proteção social – que, em muitos contextos, seguram quedas mais abruptas de renda e consumo – mas de compreender que elas não são substitutos de um projeto de desenvolvimento.

Quando iniciativas estatais deixam de ser pontes para se tornarem destinos, a economia local pode ficar viciada na dependência, em vez de fomentar capacidades produtivas autônomas.

E a quarta-feira de cinzas segue ali, na avenida principal, com fachadas que exibem vitrines vazias e placas de “aluga-se”, enquanto pequenos serviços sobrevivem – e sobrevivem bem – porque escapam à lógica do varejo tradicional e se inserem em necessidades diretas e físicas da vida cotidiana. Esse silêncio de lojas fechadas pode ser lido como a ressaca mais concreta: não de um carnaval que passou, mas de oportunidades que falharam em chegar.

Se Taquaritinga tem de dialogar com seu futuro, talvez o primeiro passo seja admitir algo incômodo: a cidade não vai “virar” nenhum regime político distante, mas corre o risco de se tornar apenas um nome no mapa econômico, sobrevivendo de migalhas de consumo local, empregos públicos e nostalgia, enquanto as rodovias que a atravessam conectam gente, bens e ideias que ali jamais pousam por muito tempo.

Mudar o futuro não é igual curar ressaca com Epocler e Novalgina. Não existe comprimido para má escolha. É aprender a votar, a escolher melhor, a parar de terceirizar o cérebro. Ou muda de verdade — ou assume: seguimos cidade-dormitório, só que agora com mais insegurança, menos esperança e a mesma turma no comando.

O resto é aquela clássica foto de bobo(a) feliz no

carnaval, sorrindo ao lado das “ilustres” figuras que, com muita eficiência administrativa, ajudaram a colocar a cidade na confortável posição de estátua do fracasso.

Mas calma… o carnaval estava lindo, é fato! Confete cobre quase tudo — menos a responsabilidade de falhas administrativas que, a partir de agora, vão começar a brilhar mais do que os paetês das fantasias.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.