terça-feira, 12 maio, 2026

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Coluna Clikando – Entre a tradição e o futuro

Por: Gabriel Bagliotti*

Taquaritinga e o desafio de se tornar Município De Interesse Turístico

Nesta última semana, uma publicação de O Defensor trouxe novamente ao debate uma pauta que, há anos, ronda o imaginário e a política local: a possibilidade de Taquaritinga ser incluída no rol dos Municípios de Interesse Turístico (MITs) do Estado de São Paulo. A proposta não é nova, mas reacendeu discussões importantes sobre identidade, vocação econômica e, sobretudo, sobre a visão que nós, moradores, temos da nossa própria cidade.

A notícia ganha relevância porque o deputado estadual Itamar Borges, pela segunda vez, apresenta na Assembleia Legislativa a pauta relacionada à inserção de Taquaritinga como MIT. Outros parlamentares já se debruçaram sobre o tema, como Welson Gasparini (in memoriam) e Campos Machado, mas o projeto sempre esbarrou em entraves políticos e, principalmente, em uma resistência local: a descrença no potencial turístico da cidade. Agora, segundo Borges, a discussão deve avançar nos próximos meses e, enfim, Taquaritinga poderá entrar para esse grupo seleto.

O título de MIT não é simbólico. Criado há dez anos, o programa tem hoje 144 cidades paulistas que recebem apoio direto do Estado para desenvolver projetos turísticos. O reconhecimento garante verba anual para investimento em infraestrutura, promoção de atrações e fortalecimento da economia local. Ou seja, é dinheiro público destinado a transformar potenciais em realidade. Mas a pergunta que ecoa nas ruas é: Taquaritinga tem mesmo essa vocação?

A dúvida não é sem fundamento. A opinião popular, em geral, enxerga o turismo como algo distante da nossa realidade. Muitos associam o conceito apenas a cidades litorâneas, serranas ou com patrimônio histórico tombado, sem perceber que o turismo se desdobra em múltiplas formas: religioso, rural, cultural, de eventos e até esportivo. O problema, portanto, não é a ausência de atrativos, mas a falta de organização, de promoção e de autoconfiança.

Tomemos como exemplo a Serra do Jabuticabal, um cartão-postal natural que poderia se consolidar como espaço de ecoturismo, trilhas, esportes radicais e contemplação da natureza. Hoje, porém, carece de estrutura básica para receber visitantes de fora. O mesmo ocorre com o turismo religioso. A cidade celebra anualmente festas em louvor a São Sebastião e Nossa Senhora Aparecida, e a recente reforma da Matriz de São Sebastião reforça o potencial de atrair fiéis e peregrinos. Mas, mais uma vez, a ausência de planejamento faz com que essas celebrações permaneçam restritas à comunidade local.

Eventos tradicionais também poderiam se transformar em âncoras turísticas. O Carnaval, com o Trio Elétrico Batatão, carrega uma tradição que marcou gerações e ainda tem espaço para renascer com força, ganhando mais adeptos, isso sem falar da Jardineira da Tarde, que a cada ano arrasta multidões pelas ruas centrais da Cidade . A Festa do Peão, organizada pelo Clube de Rodeio “Os Pampas”, atrai público regional, mas precisaria de maior profissionalização e investimento para competir com rodeios de cidades vizinhas. Já o Corpus Christi, com seus tapetes artísticos, é um espetáculo de fé e cultura popular que, a cada ano, ganha mais adeptos e visibilidade, mas ainda sem o devido suporte para se consolidar como atração estadual.

É aqui que o título de MIT faz diferença. Ele não cria atrativos do nada, mas fornece recursos e legitimidade para que o município organize, amplie e promova aquilo que já existe. O turismo, quando bem estruturado, gera emprego, movimenta comércio, valoriza a cultura local e fortalece a autoestima da população. Em outras palavras, não se trata de “vender uma imagem falsa” da cidade, mas de olhar para dentro e enxergar valor no que já temos.

O desafio maior, contudo, é cultural e político. Enquanto parte da população permanecer cética quanto ao potencial turístico, o projeto enfrentará resistência e descrédito. E sem mobilização social, dificilmente o título de MIT se traduzirá em transformações concretas. É preciso um pacto coletivo — entre poder público, iniciativa privada e comunidade — para transformar o turismo em estratégia de desenvolvimento.

Taquaritinga, assim como tantas outras cidades do interior, não pode mais se contentar em ser apenas “mais uma”. A globalização e as mudanças econômicas exigem que os municípios encontrem novas vocações, novos caminhos para se destacar. O turismo é uma possibilidade concreta, mas depende de planejamento, profissionalização e, acima de tudo, de acreditar que somos capazes de construir um futuro diferente.

Se o passado nos legou tradições ricas e eventos marcantes, cabe a nós decidir se vamos tratá-los como meras lembranças nostálgicas ou como pilares para um novo ciclo de desenvolvimento. O título de Município de Interesse Turístico pode ser a chave para essa transformação. Mas, como toda chave, de nada serve se insistirmos em mantê-la no bolso, sem abrir as portas do futuro.

*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.