O que faremos com essa conquista?
Por: Gabriel Bagliotti*
E finalmente saiu! Depois de anos de espera, debates e idas e vindas políticas, Taquaritinga foi oficialmente incluída no rol de Municípios de Interesse Turístico (MITs) do Estado de São Paulo. A aprovação ocorreu na última semana, em sessão extraordinária da Assembleia Legislativa, que reconheceu 70 novas cidades como aptas a disputar recursos do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos (Dadetur). Com isso, São Paulo passa a ter 214 MITs, número que reforça a importância da política pública de valorização das potencialidades locais.
Na prática, a conquista ainda não significa acesso imediato aos recursos. As novas cidades só poderão pleitear verbas estaduais a partir do próximo ciclo de ranqueamento, em 2027. Até lá, cabe aos gestores locais se organizarem, planejarem e estruturarem projetos consistentes para que, quando o momento chegar, Taquaritinga não apenas figure na lista, mas também consiga captar os investimentos que farão diferença no desenvolvimento turístico da cidade.
Aqui está o ponto nevrálgico da discussão: o título é simbólico e político, mas não gera frutos por si só. Ser MIT significa abrir uma porta, mas de nada adianta se o município não tiver coragem e competência para atravessá-la. Por isso, a responsabilidade recai, sobretudo, sobre a Secretaria de Cultura e Turismo, comandada por Jhonatas Fidellis, e sua equipe, composta pelo diretor Lucas Moreira, pela assessora Dayana Scardoeli e por servidores engajados como o artista plástico Chico Gabozzo, entre outros. Eles, que já vêm buscando qualificações e rascunhando projetos, precisam agora dar corpo a ideias que transformem as riquezas locais em produtos turísticos sustentáveis.
E não faltam possibilidades. A Serra do Jabuticabal é um dos exemplos mais emblemáticos: um patrimônio natural com enorme potencial para o ecoturismo, trilhas, esportes de aventura e atividades ligadas à preservação ambiental. Porém, falta infraestrutura mínima e um olhar mais estratégico para transformar o espaço em atrativo regional.
O turismo religioso também se apresenta como um caminho promissor. Taquaritinga realiza, ano após ano, festas em louvor a São Sebastião e Nossa Senhora Aparecida, celebrações que reúnem milhares de fiéis e que, com o devido apoio, podem ultrapassar as fronteiras da cidade. A recente reforma da Matriz de São Sebastião, que valorizou ainda mais a imponência do templo, é um trunfo que não pode ser negligenciado nesse planejamento.
Eventos tradicionais, já enraizados na memória popular, também devem ser reposicionados. O Carnaval, com o Trio Elétrico Batatão, traz um legado cultural que poderia ser explorado como diferencial da cidade. A Festa do Peão, organizada pelo Grupo Os Pampas, tem potencial de atrair público regional, mas precisa ser tratada com visão profissional, ampliando sua visibilidade e agregando valor ao calendário turístico. E o Corpus Christi, com seus tapetes artísticos, vem crescendo em beleza e adesão popular, consolidando-se como expressão cultural e religiosa digna de destaque estadual.
No entanto, é fundamental que não caiamos no erro de acreditar que basta nomear atrações e esperar que o turismo “aconteça”. O desenvolvimento turístico exige planejamento de longo prazo, investimento em infraestrutura básica (como acessibilidade, sinalização e segurança), capacitação da mão de obra local e, principalmente, engajamento da comunidade. O turista não procura apenas um evento ou uma paisagem: ele busca experiências, hospitalidade e identidade.
É justamente aqui que Taquaritinga precisa amadurecer. Durante anos, parte da população manifestou ceticismo em relação ao potencial turístico da cidade. Muitos viam — e ainda veem — a pauta como mero artifício político, sem resultados práticos. A titulação como MIT, portanto, é também um chamado à autoestima coletiva: precisamos aprender a valorizar o que temos e a enxergar nossa cultura, nossas festas e nossas paisagens como ativos capazes de gerar desenvolvimento.
O risco agora é que essa vitória se torne apenas mais um troféu de gaveta, citado em discursos e palanques, mas sem desdobramentos concretos. Os próximos dois anos serão decisivos para Taquaritinga construir projetos que estejam prontos para o ciclo de 2027. Caso contrário, perderemos uma oportunidade histórica e, pior, reforçaremos a descrença popular.
Taquaritinga está, pela primeira vez, diante de uma chance real de repensar seu futuro a partir do turismo. A cidade não será transformada da noite para o dia, mas pode dar passos importantes rumo à diversificação econômica, à valorização cultural e à criação de empregos. Para isso, será preciso coragem política, competência técnica e, sobretudo, união da comunidade em torno de um projeto maior.
O título de MIT não é o ponto de chegada, mas sim o ponto de partida. E o que faremos com essa conquista depende de todos nós.



