Por: Lucas Fanelli*
Queridos leitores, já se depararam com uma obra que funcionou perfeitamente pra ti? Às vezes lemos livros que todos estão extremamente apaixonados e falando, mas quando começamos a ler ele simplesmente não funciona conosco. Aconteceu isso quando li “A biblioteca da meia-noite” de Matt Haig, todos estavam falando extremamente bem do livro e o quanto incrível a lição era. Eu já sabia o que iria acontecer no final do livro logo nas primeiras páginas e nada durante a leitura me surpreendeu, muito menos o final.
Mas existe um livro que funcionou direitinho pra mim e quando finalizei a leitura, fechei o livro e fiquei durante alguns minutos pensando: “que experiência incrível foi essa?”.
A indicação de leitura dessa semana é “O Demonologista” de Andrew Pyper. Minha relação com a religião é tão próxima que faz eu me entender como agnóstico, diante disso o livro conseguiu tocar em um ponto tão íntimo meu que além da incrível narrativa construída pelo Pyper, eu pude me sentir exatamente na pele do protagonista.
Imagina que você é um professor de letras renomado especializado na figura do diabo na literatura, principalmente em obras bíblicas, porém esse é apenas seu trabalho, levando em consideração que você é ateu e não acredita nessa figura tão presente no catolicismo, mas em uma viagem acaba acontecendo algo muito ruim com sua filha de 12 anos e toda sua crença, ou a falta dela, é colocada em check.
Pyper consegue transitar pelas linhas escritas com uma facilidade em fazer o leitor duvidar muitas vezes da sanidade mental do protagonista e essa é a pergunta chave que vai acompanhar você por toda a leitura. “O protagonista está louco pelo o que aconteceu com sua filha ou o que está acontecendo é uma forma do diabo mostrar sua existência?”.
David, o protagonista do romance, vai precisar passar por algumas aprovações para salvar sua filha, mas hora você acredita na existência da figura que David mais estudou na literatura, hora você está com pena de David e sua dupla perda, a filha e a sanidade mental.
O livro conversa diretamente com questionamentos que eu mesmo fazia na época, perguntas que estavam latentes no meu recém descobrimento da possibilidade de ser ateu, talvez essa seja uma das obras que me fizeram entender o agnosticismo e a possibilidade de não ser relevante a existência de um deus ou não, mas sim a relação do ser humano com suas crenças.
Alucinação ou verdade, David percorre um conturbado caminho até o final da obra e te leva junto com suas dúvidas e falta de certezas. A leitura é prazerosa e fluída e Pyper traz muitas referências de um clássico cristão “Paraíso Perdido” de John Milton, uma obra que conta a versão de Lúcifer sobre sua queda até a ascensão como líder do inferno. Tenho certeza que “O Demonologista” fará você não parar de ler até chegar ao final e ainda questionar suas, talvez poucas, certezas.



