quinta-feira, 30 abril, 2026

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Capítulo Zero

Por: Lucas Fanelli*

Olá caros leitores, espero que vocês estejam bem! Aproveitando o ensejo eu gostaria de saber se você já se perguntou o que acontece quando um monte de homens de batina se tranca numa sala sem celular, sem Netflix e com uma única missão: escolher o novo Papa? Pois é. Eu também não. Até ler Conclave, do Robert Harris.

Antes que você pense que este é mais um livro sobre fé, dogmas ou milagres envolvendo pombas e estátuas que choram, calma lá. Harris não está interessado em canonizar ninguém. O que ele faz é abrir as portas do Vaticano (sem precisar de chave mestra ou rezar três Ave-Marias) e nos convidar para um espetáculo de bastidores digno de reality show. Só que com latim, intrigas e um leve cheiro de incenso.

O protagonista, um cardeal com mais dúvidas que certezas, é o tipo de personagem que você gostaria de ter como vizinho: discreto, educado e com um talento especial para se meter em confusão sem querer. Ele é o maestro de uma sinfonia silenciosa onde cada nota é uma jogada política, cada pausa é uma tensão e cada olhar é uma ameaça velada. Se você acha que política é coisa de Brasília, prepare-se para rever seus conceitos.

O livro é uma aula de como manter o leitor preso sem precisar de perseguições de carro, explosões ou romances tórridos entre agentes secretos. Harris constrói tensão com o que não é dito, com o que é sugerido, com o que está escondido atrás de uma batina bem passada. E quando você acha que entendeu tudo, ele te dá um tapinha nas costas e diz: “Ah, é? Então leia mais uma página.”

Não tem spoiler aqui, prometo. Até porque estragar esse livro seria pecado. Mas posso garantir que, ao final, você vai olhar para o Vaticano com outros olhos. Talvez até com vontade de instalar câmeras escondidas na Capela Sistina (não faça isso, é ilegal e provavelmente excomungável).

Harris constrói uma narrativa sólida e deixa pistas durante todo o livro que te permite tentar adivinhar o final, ele faz com a mestria de um fiel rezando o terço, de forma devota e fervorosa, mas mesmo assim você não irá nem chegar perto do possível final. Essa é uma experiência de leitura ímpar que consegue enganar o leitor sem chamar o leitor de idiota.

Digo isso pois já li livros que tem aquela reviravolta extravagante que você se pega questionando “como?”, mas em momento algum, em nenhuma página, em nenhuma cena, em lugar algum o escritor permitiu a construção daquele final. O que resta de um plot twist assim é a sensação de ser chamado de idiota. Aqui eu afirmo: Conclave não é assim!

Conclave é o tipo de leitura que te faz pensar: “Será que eu também escolheria o Papa com base em alianças, segredos e um leve toque de paranoia?” E a resposta, claro, é: depende do vinho servido durante o jantar.

Se você gosta de política, suspense, personagens bem construídos e uma boa dose de ironia clerical, este livro é sua missa de domingo. Sem obrigação, sem sermão. Só literatura de primeira.

Amém.

*Lucas Fanelli é apaixonado por livros e colaborador de O Defensor.