sábado, 2 maio, 2026

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Artigo: Toda vez que o bolsonarismo ‘ganha’, quem perde é o Brasil

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não foi um gesto de independência institucional — foi um recado. E, como todo recado em Senado Federal do Brasil, veio embrulhado em voto secreto, cálculo político e uma boa dose de pressão de bastidor.

Foram 42 votos contra 34. Um placar que, por si só, já desmonta a narrativa de “mérito” ou “técnica”. Se fosse currículo, a conta não fecharia assim. Foi política — da mais crua. E política, nesse caso, operando como instrumento de chantagem.

A sabatina na CCJ foi longa, mas o veredito já parecia escrito antes mesmo das perguntas. O que se viu foi menos uma avaliação do indicado e mais a construção de um ambiente de desgaste deliberado ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A mensagem é simples: sem atender interesses do Senado, não há nome que passe.

Nos bastidores, a versão que circula é ainda mais direta — e menos nobre. A rejeição teria sido contaminada por uma espécie de “acerto de contas” envolvendo investigações da Polícia Federal no Amapá, com conexões políticas que orbitam o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Coincidência ou não, o timing fala alto. Em Brasília, quando os fatos se alinham demais, raramente é acaso.

O episódio rompe um jejum de 132 anos sem rejeições presidenciais ao STF — desde Floriano Peixoto. Não é um detalhe histórico: é um sintoma institucional. O Senado, que deveria funcionar como filtro republicano, passa a atuar como alavanca de poder. Aprova-se ou rejeita-se não com base no nome, mas na conveniência.

A celebração do resultado por figuras do bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro, candidato, também não é trivial. Há um projeto claro de enfraquecimento do governo e captura do debate público por uma lógica de confronto permanente. Nesse jogo, pouco importa quem é o indicado — importa derrotar quem indica.

O mais preocupante não é a derrota de um nome, mas o precedente que se estabelece. Quando a indicação ao Supremo vira moeda de troca, o risco deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. O Senado deixa de ser poder moderador e assume, de vez, o papel de fiador de interesses.

No fim, a pergunta que fica é: quem foi rejeitado ali — Jorge Messias ou a própria ideia de que as instituições ainda operam acima da política mais promíscua? Toda vez que o bolsonarismo ganha, quem perde é o Brasil — inclusive quando a derrota, histórica e barulhenta, recai sobre Luiz Inácio Lula da Silva.

O ponto central é simples: Lula apostou em um nome evangélico — e esse nome acabou rejeitado pelos seus próprios.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.