sábado, 2 maio, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Artigo: O debate escolar: a importância da construção do repertório sociocultural discente e as aulas de Redação

Por: Sérgio Sant’Anna*

No corredor ainda ecoavam risadas tímidas quando o debate começou na turma do nono ano do Colégio Santíssimo Sacramento. O livro A beleza está nos olhos de quem lê, que poderia ser apenas mais uma leitura obrigatória, transformou-se em espelho. Cada aluno, ao comentar um trecho, parecia também comentar a si mesmo — suas inseguranças, seus julgamentos, seus silêncios.

A princípio, houve hesitação. Afinal, opinar exige coragem, e a escola, muitas vezes, ensina mais a responder do que a questionar. No entanto, à medida que as vozes se entrelaçavam, o espaço escolar deixava de ser um lugar de respostas prontas para tornar-se um território de construção coletiva de sentido. Ali, percebia-se na prática o que Paulo Freire defendia: a educação como um ato dialógico. Não há aprendizagem verdadeira sem escuta, sem troca, sem a problematização do mundo. O debate, nesse sentido, não era apenas um recurso didático, mas um gesto político.

E como todo gesto político, ele carregava tensões. Houve discordâncias, interpretações divergentes e até pequenos conflitos — mas eram conflitos férteis, daqueles que ampliam horizontes. Afinal, como já apontava Sócrates, é no confronto de ideias que se revela a verdade possível.

Dias depois, em outro cenário, os alunos do Ensino Médio do Colégio Coração Feliz assistiam ao documentário Ausências, produzido pelo Ministério Público de Santa Catarina. O silêncio, desta vez, era outro: mais denso, mais pesado, quase palpável. O tema do feminicídio não permitia neutralidade. Cada relato exposto na tela parecia romper a barreira entre o “lá fora” e o “aqui dentro”. A escola deixava de ser um espaço isolado da realidade para assumir seu papel como mediadora das urgências sociais.

Nesse momento, o debate não era apenas acadêmico — era ético. Discutir aquelas histórias exigia empatia, responsabilidade e, sobretudo, consciência crítica. Era o tipo de formação que ultrapassa o conteúdo e alcança a cidadania.

Lembrava-se, então, da tradição do Realismo, que buscava revelar as mazelas sociais sem adornos, assim como autores como Machado de Assis, que expunham as contradições humanas com ironia e profundidade. A arte, mais uma vez, mostrava-se como instrumento de reflexão.

Mas não apenas a literatura cumpre esse papel. O documentário, como linguagem contemporânea, aproxima-se do que Walter Benjamin discutia sobre a reprodutibilidade técnica da arte: a possibilidade de ampliar o acesso e, com isso, democratizar a consciência. Entretanto, nenhum desses momentos seria possível sem o repertório docente. O professor, ao selecionar obras, propor debates e conduzir discussões, atua como curador do conhecimento. É ele quem cria as pontes entre o aluno e o mundo.

Por isso, formar o repertório do professor é tão essencial quanto formar o do aluno. Um educador que dialoga com diferentes áreas — filosofia, literatura, cinema, sociologia — amplia as possibilidades de leitura de mundo de seus estudantes.

Nesse contexto, movimentos como o Modernismo também se tornam referências importantes, ao valorizarem a ruptura, a crítica e a reinvenção — princípios que dialogam diretamente com a prática do debate em sala de aula.

Ao final, resta a certeza de que o debate não é apenas uma metodologia, mas uma experiência formativa. Ele ensina a argumentar, a ouvir, a respeitar e, sobretudo, a pensar. E pensar, como já nos alertava Hannah Arendt, é um ato profundamente humano — e também profundamente necessário em tempos em que o silêncio, muitas vezes, se impõe como regra.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.