quarta-feira, 11 março, 2026

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Artigo: Que vida é essa quando o texto nasce de circuitos e não de cicatrizes?

Por: Sérgio Sant’Anna*

No princípio, a palavra era sopro humano. Era hesitação, rasura, café frio ao lado do caderno. Hoje, entretanto, a palavra também é algoritmo. Em segundos, surgem poemas, dissertações, cartas de amor e até crônicas — todas impecavelmente organizadas, coesas, quase irretocáveis. Contudo, ao folheá-las com a atenção que se dedica a um manuscrito antigo, percebe-se algo curioso: falta-lhes o tremor da experiência. Se, como ensinava Aristóteles, a arte imita a vida, que vida é essa quando o texto nasce de circuitos e não de cicatrizes?

Não se trata de negar o engenho técnico dessas ferramentas. Elas organizam ideias, sugerem repertórios, oferecem sinônimos como quem distribui flores artificiais — belas, sim, mas sem perfume. O risco, todavia, é sutil e profundo: acostumar-se à facilidade. Platão já desconfiava da escrita por afastar o homem da memória viva; que diria, então, de uma escrita que prescinde até mesmo do esforço do pensamento? Talvez temesse que, delegando a outrem a tarefa de refletir, o sujeito abdicasse do exercício que o constitui como ser racional.

Recordo-me de Machado de Assis, que desconfiava das certezas e das verdades prontas. Em suas entrelinhas, havia ironia, ambiguidade, humanidade. Um algoritmo pode até imitar-lhe o estilo, mas dificilmente reproduzirá o olhar enviesado de quem observou a sociedade do Segundo Reinado com fina perspicácia. Do mesmo modo, Clarice Lispector escrevia como quem tateia o invisível; sua palavra era quase respiração. Pode a máquina sentir o silêncio que antecede a epifania?

Há, ainda, um malefício pedagógico que se infiltra nas salas de aula. Quando estudantes recorrem à produção automática, perdem a oportunidade de errar — e é no erro que se lapida o estilo. Paulo Freire defendia uma educação libertadora, fundada no diálogo e na construção crítica do saber. Se o texto vem pronto, onde está o diálogo? Onde se forma a consciência? A escrita, mais do que produto, é processo; mais do que resultado, é travessia.

Entretanto, seria simplista demonizar a tecnologia. O problema não reside na ferramenta, mas no uso que dela se faz. Como advertia Hannah Arendt ao refletir sobre a banalidade do mal, o perigo muitas vezes não se apresenta com estardalhaço, mas com aparência de normalidade. O hábito de terceirizar o pensamento pode tornar-se corriqueiro, e, quando percebermos, talvez já tenhamos desaprendido a sustentar uma ideia com a própria voz.

Assim, entre a caneta e o código, permanece uma escolha ética. A inteligência artificial pode auxiliar, sugerir, organizar; contudo, não deve substituir o labor íntimo de pensar e sentir. Afinal, como insinuava Friedrich Nietzsche, é preciso tornar-se aquilo que se é — e isso exige confronto, dúvida, criação. Que as máquinas escrevam, se necessário; mas que o ser humano não abdique da tarefa, árdua e bela, de escrever a si mesmo.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.