quinta-feira, 30 abril, 2026

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Artigo: Precisamos falar sobre o garoto de Mossoró

E, sobretudo, sobre os adultos que o cercam.

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

O filme Precisamos Falar Sobre Kevin, adaptação do livro de Lionel Shriver dirigida por Lynne Ramsay, não é apenas uma narrativa sobre um adolescente violento, mas um retrato perturbador da omissão, da negligência e da incapacidade dos adultos de reconhecer e enfrentar sinais claros de ruptura moral e afetiva. Kevin não surge do nada. Ele é resultado de um ambiente permissivo, de silêncios sucessivos e de falhas reiteradas de quem deveria educar, orientar e intervir. É impossível não lembrar dessa obra diante do episódio ocorrido em Mossoró, no Rio Grande do Norte, quando um adolescente compareceu a uma festa de formatura vestido com símbolos nazistas e reproduziu publicamente a saudação associada ao culto a Adolf Hitler e ao regime responsável por um dos maiores genocídios da história. Não se trata de provocação juvenil, brincadeira de mau gosto ou ignorância histórica. Trata-se de apologia ao nazismo, crime tipificado no Brasil pela Lei nº 9.459/97, que prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa, ao criminalizar a fabricação, a divulgação e a exibição de símbolos e gestos ligados à ideologia nazista.

A reação institucional ao episódio foi correta e necessária. A faculdade repudiou o ocorrido, a produtora do evento se manifestou, os formandos expressaram indignação, o Conselho Tutelar se posicionou e a Delegacia Especializada passou a investigar o caso. Ainda assim, permanece uma lacuna grave no debate público: a responsabilidade direta dos pais do adolescente. O menor chegou ao evento acompanhado por eles, teve acesso a vestimentas e insígnias nazistas, demonstrou pleno entendimento simbólico ao reproduzir a saudação e sentiu-se à vontade para performar esse gesto em um ambiente público e festivo. Isso não acontece por acaso, nem brota espontaneamente. Quando um adolescente expressa identificação com uma ideologia fundada no extermínio, no racismo e na negação da dignidade humana, o problema não se restringe ao indivíduo, mas ao entorno que o formou e falhou em impor limites claros.

O nazismo não é estética, não é fantasia histórica e não pode ser relativizado como rebeldia inofensiva. Seus símbolos carregam o peso de milhões de mortes e de uma lógica de desumanização que a civilização jurou não repetir. Normalizar esse imaginário é abrir espaço para a banalização do ódio e para a erosão dos valores democráticos. Por isso, quando o extremismo sai do espaço privado e se manifesta publicamente, o alerta precisa ir além da esfera policial, alcançando também o campo psicológico, pedagógico e social, começando dentro de casa. Assim como em Precisamos Falar Sobre Kevin, a pergunta incômoda se impõe: quem falhou antes que o gesto se tornasse público e viralizasse?

Há ainda um agravante ético no desfecho do episódio. Os pais permitiram que o menor se expusesse publicamente pedindo desculpas, num gesto que soa menos como reconhecimento de culpa e mais como tentativa de contenção de danos. Pedir desculpas é necessário, mas transferir todo o peso da responsabilidade para um adolescente enquanto os adultos se ocultam é um ato de covardia. O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao estabelecer que pais e responsáveis têm o dever legal de educar, orientar e proteger. Quando falham, seja por negligência, conivência ou omissão, devem ser responsabilizados. Não se trata de punição exemplar ou linchamento moral, mas de afirmação de um princípio básico: crianças e adolescentes não se formam sozinhos.

O caso de Mossoró não deve ser tratado como episódio isolado, mas como sintoma de um ambiente social em que discursos autoritários são relativizados, símbolos de ódio são banalizados e limites educativos são dissolvidos em nome de uma falsa ideia de liberdade. O extremismo não começa com violência física ou atos extremos, mas com sinais tolerados, silêncios cúmplices e adultos que preferem não enxergar. Precisamos falar sobre o garoto de Mossoró, sim, mas sobretudo precisamos falar sobre os adultos ao redor dele, porque a história demonstra, de forma implacável, que quando a sociedade escolhe o silêncio, o custo sempre chega — e nunca é baixo.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.