segunda-feira, 20 abril, 2026

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Artigo: O labirinto da segurança no brasil: entre a urgência e o projeto de nação

Falar de segurança pública no Brasil é falar de medo, desigualdade e omissões históricas travestidas de soluções imediatistas

Por: Igor Sant’Anna*

A segurança pública no Brasil ultrapassa o campo das estatísticas policiais para se afirmar como o verdadeiro calcanhar de Aquiles da nossa democracia. É o espelho mais nítido das desigualdades sociais que ainda estruturam o país. Em meio a discursos polarizados, o debate sobre a violência tem se transformado, muitas vezes, em um ringue de slogans e simplificações, onde a retórica do “endurecimento” abafa a complexidade de um problema que exige profundidade e projeto de Estado.

A Constituição Federal de 1988 consagrou a segurança como um direito social, dever do Estado e responsabilidade de todos. No entanto, a realidade cotidiana desmente esse princípio. O país convive com um sistema fragmentado, ainda pautado pela lógica da repressão e pouco aberto à prevenção social. Os altos índices de letalidade violenta, que atingem principalmente a juventude negra e periférica, e a expansão do crime e

organizado na que já se infiltra em setores da economia e do poder são expressões de um mesmo ïfracasso estrutural.

Politicamente, a segurança tornou-se uma arena minada. A polarização converte o debate em mera disputa ideológica, e a chamada “guerra às drogas” serve, há décadas, como um véu que encobre a urgência de reformas profundas nas polícias e no sistema prisional. O modelo  a ausência de uma carreira de Estado que valorize o profissional da segurança como agente de cidadania e não apenas de coerção.

Pensar segurança pública requer coragem para romper com o senso comum punitivista. É compreender que segurança não se constrói apenas com armas e viaturas, mas com educação, emprego, saúde, cultura e justiça social. A exclusão, a impunidade seletiva e o sistema carcerário precário retroalimentam o ciclo da violência, transformando o cárcere em incubadora do crime organizado.

O desafio político está em transformar a segurança em uma política de Estado, e não de governo. Isso significa:

Fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), com financiamento estável e coordenação real entre União, Estados e Municípios;

Promover a reengenharia das instituições policiais, com foco na inteligência, na investigação e no policiamento comunitário;

Investir em ciência e evidência, utilizando dados e transparência para orientar decisões e medir resultados.

A segurança no Brasil é, em última instância, um reflexo de nossa desigualdade. Enquanto a proteção for privilégio de poucos e o medo cotidiano da maioria, estaremos adiando a construção de uma cidadania plena. É hora de o país assumir a segurança pública como projeto de nação e não como bandeira de campanha.

Porque só haverá Ordem e Progresso quando houver dignidade e proteção para todos os brasileiros.

Enquanto o Estado enxergar a segurança como guerra e não como cuidado, continuaremos presos no labirinto que nós mesmos construímos.

*Igor Sant’Anna é colaborador de O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.