Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
A inflação brasileira vive um momento curioso. Depois de anos em que o custo de vida parecia fugir de qualquer controle, o país volta a respirar um ar de estabilidade. Sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o índice acumulado de preços caminha para ser o mais baixo desde o Plano Real — e isso não é pouca coisa. Num país que historicamente conviveu com a corrosão do poder de compra, a notícia soa quase como um alívio coletivo.
De acordo com as projeções, a média anual do IPCA no terceiro mandato de Lula deve ficar em torno de 4,9% — o menor nível de todos os governos deste século. Para um presidente que retornou ao poder em meio a um cenário inflacionário global, herança de pandemia e de guerra, o resultado tem sabor político e econômico. É, de certa forma, uma reafirmação de que a estabilidade ainda é possível, mesmo quando o mundo parece girar em torno do caos.
Não se trata apenas de um número. Inflação controlada é sinônimo de previsibilidade: o comerciante pode planejar seus preços, o trabalhador entende melhor o valor do seu salário, o governo pode agir sem a urgência das crises. Depois de uma década de sustos econômicos, há uma sensação de que o país reencontrou algum equilíbrio — um fio de serenidade no meio da desordem.
Mas é preciso cuidado com o otimismo. Ainda que os índices apontem desaceleração, o brasileiro comum não mede a inflação pelo IPCA, e sim pela feira, pelo botijão de gás, pelo aluguel. Quando o arroz e o feijão seguem caros, o discurso da estabilidade parece distante da mesa. O desafio de Lula é transformar a boa notícia estatística em realidade perceptível. De nada adianta a inflação “sob controle” se o povo não sentir o bolso mais leve.
Mesmo assim, é justo reconhecer o feito. Reduzir a inflação num país tão desigual e vulnerável a choques externos não é trivial. A política fiscal ainda precisa de ajustes, o câmbio é volátil e a confiança dos investidores oscila. Apesar disso, o resultado mostra que a combinação de política monetária cautelosa e reativação moderada da economia vem funcionando.
Desde o Plano Real, o Brasil aprendeu que controlar a inflação é mais do que uma questão técnica — é uma questão civilizatória. E é simbólico que, trinta anos depois, um governo de perfil popular consiga entregar o menor índice do período democrático recente. Há um sinal de maturidade nisso, um reconhecimento de que a estabilidade também é uma conquista social.
Se a trajetória se mantiver, Lula pode encerrar seu mandato com um legado raro: o de ter combinado crescimento moderado, aumento do emprego e inflação em queda. É um tripé que o Brasil sempre perseguiu, mas raramente alcançou.
A calmaria talvez seja breve — os ventos da economia mundial continuam imprevisíveis. Mas, por ora, é justo dizer que o país respira. E, num país historicamente sufocado pela inflação, poder respirar já é, por si só, uma vitória.
Se o cidadão taquaritinguense ainda não pescou o recado, a questão é elementar — quase pedagógica. Quem devolveu fôlego ao consumo foi Lula, não o prefeito, muito menos vereador que confundiu a urna com um espelho e o cargo com vitaliciedade. Acreditou-se que bastava colar a foto de Bolsonaro no santinho e sair distribuindo “Deus, Pátria e Família”. Deu ruim.
As bravatas, repetidas com a convicção de papagaio em comício, afundaram na urna — e levaram junto a autoconfiança de quem se achava líder por postar versículos no Instagram. Descobriram, tarde demais, que política não é vitrine de vaidades nem abrigo para medíocres, mas um teste de coerência. E coerência, convenhamos, anda mais escassa que honestidade em licitação.
O país, esse sobrevivente profissional, segue em frente. Até a Faria Lima — sempre tão pragmática, — já ensaia admitir que uma vitória de Lula no primeiro turno não seria obra do acaso, mas apenas a realidade batendo à porta.



