sexta-feira, 15 maio, 2026

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Artigo: Governo, por favor, ajude mais o agronegócio

(ou talvez ajude menos — depende de quem paga a conta)

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Por anos, o agronegócio brasileiro acostumou-se a repetir um mantra poderoso: o agro é tech, o agro é pop, o agro é tudo. O setor tornou-se símbolo de eficiência, produtividade e competitividade global. Mas, diante dos números mais recentes, surge uma pergunta incômoda: se é tudo isso, por que precisa de tanto socorro?

Levantamento da Serasa Experian mostra que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, um salto de 56,4% em relação ao ano anterior. O número inclui produtores rurais pessoa física, produtores pessoa jurídica e empresas ligadas à cadeia produtiva. Em 2023, foram apenas 534 solicitações.

Ou seja, algo mudou — e rápido.

Entre os fatores apontados estão a queda e posterior estabilização dos preços das commodities, após um período em que muitos produtores se alavancaram com expectativas otimistas. Soma-se a isso o aumento expressivo do custo dos fertilizantes durante o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, justamente quando o setor mais precisava de previsibilidade.

Agora, com novas tensões geopolíticas no Oriente Médio, o ambiente de incerteza volta a rondar os mercados agrícolas. E, no meio desse cenário, surgem também análises sugerindo que parte dos pedidos de recuperação judicial pode funcionar como instrumento de gestão de dívida — ou, dito de forma mais direta, como uma maneira elegante de empurrar o problema para frente.

Nada disso seria tão relevante para o restante do país se o agronegócio fosse um setor isolado, financiado exclusivamente com capital privado. Mas não é.

O setor opera apoiado em um amplo sistema de financiamento público e privado: Plano Safra, fundos constitucionais como o FCO, linhas de crédito subsidiadas, além de instrumentos modernos como as LCAs e os Fiagros. Esse conjunto de mecanismos foi fundamental para impulsionar o crescimento do agro nas últimas décadas — e, em muitos momentos, com forte participação do Estado.

Não por acaso, os efeitos da inadimplência já começam a aparecer no sistema financeiro. O Banco do Brasil, principal financiador do crédito rural, viu sua taxa de inadimplência saltar de 0,94% para mais de 5% em seu último balanço.

Aqui surge a ironia inevitável: quando os preços internacionais sobem, os lucros são privados e celebrados em dólares. Quando as margens apertam, o pedido de ajuda costuma ser público — e em reais, pagos pelo contribuinte.

É claro que o agronegócio é estratégico para o país. Representa parcela relevante do PIB, sustenta superávits comerciais e movimenta cadeias produtivas inteiras. Ignorar dificuldades do setor seria ingenuidade econômica.

Mas também seria ingenuidade ignorar outro ponto: o lucro do agro e o prejuízo da população não podem ser a mesma conta.

Se o setor quer — e merece — apoio em momentos difíceis, também precisa aceitar que políticas públicas exigem equilíbrio. Subsídios, renegociações e programas de crédito não são neutros: alguém paga por eles.

E, na maioria das vezes, esse alguém é o contribuinte brasileiro — que não exporta soja, não vende milho em Chicago e tampouco tem hedge cambial para proteger o orçamento doméstico. Por isso, talvez a discussão não seja simplesmente ajudar mais ou ajudar menos o agronegócio.

A questão central é como ajudar sem transferir integralmente o risco privado para a sociedade. Porque, no fim das contas, um país equilibrado não é aquele em que apenas um setor prospera — mesmo que seja o mais eficiente da economia.

É aquele em que o sucesso de alguns não se transforma na conta de todos.

*Raphael Anselmo é economista.

*Gustavo Girotto é jornalista.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.