Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**
Os Estados Unidos, com sua tradicional sutileza diplomática (leia-se: marreta), voltaram à carga contra o Brasil. O motivo? Para alguns entusiastas do nacionalismo delirante, é porque Eduardo Bolsonaro teria feito um “trabalho incrível”. Talvez ele tenha mesmo feito — se o critério for provocar crises internacionais em tempo recorde.
A verdade, no entanto, está longe desses delírios patriótico-familiares. O problema se chama BRICS — aquele bloco que ousa desafiar a ordem econômica centrada no dólar, flerta com alternativas multipolares e, para azar dos donos da bola, resolveu fabricar a sua própria. E sim, ela é Made in China.
Enquanto Donald Trump brinca de justiceiro global, tentando aplicar sanções com base na Lei Magnitsky, esquece um detalhe: os EUA já não produzem nem a bola, nem o apito, e muito menos o VAR. O país que já foi símbolo da industrialização agora terceiriza até a própria indignação.
No meio do jogo, surge Alexandre de Moraes — que deixou de ser apenas ministro do STF para se tornar símbolo global no combate ao extremismo digital e às tentativas de golpe disfarçadas de liberdade de expressão. A reação internacional? Um misto de incômodo e respeito. Para os “paladinos da democracia”, é desconcertante ver o Brasil liderar a defesa do Estado de Direito com mais firmeza do que muitas democracias centenárias.
A movimentação americana tem pouco a ver com o deputado que passeia pela Disney e posta fotos com bonés vermelhos. Os Bolsonaros são só a fumaça. O incêndio está na emergência de um novo arranjo geopolítico em que o Brasil, gostem ou não, ocupa papel central.
É um recado enviesado contra um Brasil que, no pós-Bolsonaro, saiu do papel de satélite obediente e passou a dialogar com a China sem pedir bênção a Washington. A aproximação com a Ásia, a tentativa de desdolarizar o comércio entre os BRICS e o fato de que potências emergentes deixaram de pedir licença para existir é o que realmente incomoda.
Nesse jogo, os EUA, que adoram ser os “donos da bola”, enfrentam um dilema: a fábrica da bola não é mais deles. A indústria foi embora. A liderança moral está abalada. E o árbitro que eles tentam pressionar atende por Alexandre de Moraes — que virou referência internacional no combate às milícias digitais, ao autoritarismo camuflado de liberdade e ao negacionismo judicializado.
Moraes hoje é mais do que um juiz: é um case de Direito Constitucional contemporâneo, citado por cortes e universidades ao redor do mundo. Isso, claro, também fere suscetibilidades. Afinal, os donos da democracia agora estão aprendendo com o Brasil.
No fim, os Bolsonaros são apenas distração conveniente — caricaturas úteis. O verdadeiro incômodo é com um Brasil que pensa com cabeça própria, quer jogar no centro do campo e não se contenta mais em aplaudir da arquibancada.
O mundo mudou. O tabuleiro também. E os EUA vão precisar encarar uma nova realidade: talvez ainda se achem donos da bola, mas ela agora vem com etiqueta chinesa, novas regras e jogadores que se recusam a brincar de colônia. E Alexandre de Moraes, após recusar ajuda de Lula contra a Lei Magnitsky, pode estar querendo se posicionar como a 3ª via para 2030. Afinal, de Sérgio Moro, ele não tem nada….




