Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
A crítica é uma das colunas de sustentação de qualquer sociedade democrática. Mas quando se torna seletiva — dirigida apenas a certos grupos, enquanto outros são blindados — ela perde sua função e passa a ser apenas mais um mecanismo de manutenção de privilégios.
Em nossa cidade, a seletividade crítica nunca foi exceção: sempre foi a regra. Nos anos 1990 e 2000, skatistas, rappers e adeptos do Hip Hop eram tratados como marginais, vigiados de perto pelo preconceito. Antes deles, os primeiros espaços de Rock’n’Roll também foram estigmatizados e perseguidos. O preconceito só começou a ceder quando os movimentos underground passaram a ser frequentados por setores da classe média — prova de que o problema nunca foi a música ou a cultura, mas a origem social de quem a produzia.
O mesmo rigor, porém, nunca se aplicou ao entretenimento “respeitável”: festas do peão, jantares de gala ao estilo Brasília dos anos 80 e celebrações da elite local sempre estiveram fora do alcance da crítica.
Na política, a lógica se repete. Criticar partidos ligados às lutas sociais — PCdoB, PCB, PSOL, PSTU, PT — virou esporte cotidiano, praticamente um “bom dia”. Piadas, ataques e desdém se tornaram rotina. Mas quando a posição se volta contra partidos conservadores ou liberais, instala-se a blindagem: surgem os ofendidos, multiplicam-se os comovidos pela “injustiça” e logo aparecem os censores de ocasião, prontos a transformar o debate em intimidação.
Essa assimetria não revela apenas divergências ideológicas: é o retrato fiel do atraso político, econômico e social que nos mantém estagnados. Enquanto cidades vizinhas, como Matão e Araraquara, conseguiram construir um ambiente político mais plural e aberto ao diálogo, continuamos rodando em círculos, reféns de uma mentalidade que marginaliza seletivamente, sufoca a criatividade e protege velhos privilégios.
Crítica verdadeira deveria ser universal, dirigida a práticas e ideias — nunca a grupos escolhidos conforme conveniências. Mas quando ela vira espetáculo seletivo, o debate morre e a cidade perde qualquer chance de avanço.
Mais grave ainda: quando o contraditório desce ao nível das ofensas pessoais, ataques a familiares e tentativas de desumanização, não há apenas perda de razão — há a falência total do diálogo. A crítica, nesse ponto, deixa de ser exercício de consciência e se transforma em puro espetáculo de mediocridade -, lembrando que até a máfia tem um código de conduta de que os familiares são civis.
Formar bons grupos, capazes de enriquecer a vida pública, exige afastar-se dos que sobrevivem apenas de ataques vazios — os desajustados, incapazes de conviver com equilíbrio. Quem atravessa a linha e atinge famílias assina seu atestado de falência moral. Não constrói, não convence, não transforma: apenas escancara o desespero de quem já perdeu.
É preciso também vacinar a política local contra a idolatria dos ignorantes e contra os “Rasputins” do jardim de infância, sempre ávidos por manipular.
No fim, basta espremer as laranjas novas: a casca brilha, o discurso parece vitaminado, mas o caldo é ralo, cheio de sementes. E o sabor, o mesmo de sempre: oportunismo, vaidade e o eterno bagaço cultivado no puxadinho bolsonarista — onde o frescor prometido nunca chega.
*Raphael Anselmo é economista.
**Gustavo Girotto é jornalista.
***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



