Por: Rodrigo Panichelli*
Eu fui criança um dia. E talvez seja justamente por isso que algumas coisas do futebol ainda me incomodem mais do que deveriam.
Sou São Paulino, sou até hoje, mas quando criança meu pai sempre me vestia com a camisa do Corinthians e isso nunca foi um problema para enxergar o futebol como uma fronteira onde, de um lado, estão os meus e, do outro, todos os outros.
Como era canhoto, queria ser como craque Neto. Queria bater falta como ele. Queria ter aquela categoria, aquela elegância de quem parecia colocar a bola onde bem entendesse. Em determinado período da infância, até usava a meia enrolada de tênis para jogar bola, inspirado no Biro-Biro, do Corinthians.
Olha só: um são-paulino querendo jogar como Neto e usando a meia do Biro-Biro.
E eu sobrevivi.
Mais do que isso: continuei são-paulino.
Depois vieram outros. Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Romário, Neymar e tantos outros jogadores que me fizeram parar diante da televisão para assistir. Não importava a camisa. Eu queria ver o talento. A jogada. O drible. O gol. Aquela coisa inexplicável que o futebol tem de fazer uma criança olhar para um jogador e pensar: “Quando eu crescer, quero jogar assim”.
Talvez seja por isso que o episódio de Neymar e aquele menino corintiano tenha me tocado tanto.
O garoto pediu a camisa. Neymar entregou.
Pronto.
Era para ser apenas isso.
Uma criança corintiana ganhando a camisa de um jogador do Santos. Um presente. Uma lembrança para guardar. Uma história para contar quando crescer. Talvez aquela camisa fosse virar relíquia, talvez ficasse pequena e fosse guardada numa gaveta, talvez um dia ele mostrasse aos próprios filhos e dissesse: “Eu ganhei do Neymar”.
Mas o que deveria terminar com um sorriso terminou com hostilidade. A criança e sua família precisaram deixar o estádio escoltadas.
E aí eu me pergunto: em que momento o futebol ficou tão adulto que até uma criança precisa escolher quem pode admirar?
Porque criança não funciona assim.
Criança gosta de gol. Gosta de drible. Gosta do jogador que faz algo diferente. Pode vestir uma camisa hoje e admirar outra amanhã. Pode torcer para um clube e ter como ídolo alguém que joga no rival.
E talvez seja justamente essa a beleza.
Tenho em casa um corintiano roxo que adora Neymar, Cristiano Ronaldo e Vinicius Júnior. Tenho também um santista que já torceu para o São Paulo. E eu poderia transformar isso numa pequena guerra doméstica de camisas.
Não transformo.
Converso. Explico. Brinco. Deixo que descubram.
Porque eles ainda estão construindo a própria relação com o futebol.
Eu não quero escolher seus ídolos. Quero ajudá-los a entender por que eles admiram alguém.
Quero que saibam que podemos comemorar um gol do nosso time e, no domingo seguinte, admirar uma jogada do adversário. Que podemos sofrer com uma derrota sem precisar transformar o outro em inimigo. Que podemos amar uma camisa sem odiar quem veste outra.
O futebol me ensinou que a paixão cabe em uma camisa.
Mas não deveria caber somente nela.
Aquela criança que recebeu a camisa do Neymar não precisava de uma escolta. Precisava apenas de alguém dizendo: “Que legal. Você ganhou a camisa do seu ídolo.”
Talvez o futebol seja exatamente isso quando ainda somos crianças: a possibilidade de admirar sem preconceito, de sonhar sem rivalidade e de enxergar no adversário aquilo que ele tem de melhor.
Depois nós crescemos.
E somos nós, adultos, que precisamos decidir se vamos ensinar as crianças a amar o futebol ou a odiar quem joga do outro lado.
Eu prefiro ensinar meus filhos a amar.
Afinal, time a gente escolhe.
Ídolo, a criança encontra.
E talvez uma das maiores responsabilidades de quem já cresceu seja não estragar essa descoberta.




