Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
A mais recente tentativa de reescrever a história da pandemia tem algo de tragicômico. Depois de anos vendendo certezas embaladas em vídeos de internet, correntes de WhatsApp e interpretações criativas de estudos científicos, o bolsonarismo voltou a comemorar aquilo que considera ser a grande prova de que estava certo desde o início. Como de costume, a celebração veio antes da leitura cuidadosa dos fatos.
Bastou a circulação de trechos e relatos sobre escritos de Anthony Fauci para que os velhos profetas do “tratamento precoce” reaparecessem proclamando uma suposta vitória histórica. Ivermectina, cloroquina e outras bandeiras derrotadas pelas evidências científicas foram retiradas do armário como se anos de pesquisas, revisões e análises simplesmente não existissem.
A lógica é conhecida. Quando os fatos não confirmam a narrativa, procura-se um factoide que a mantenha respirando por aparelhos. E, para o negacionismo, um detalhe fora de contexto vale mais do que uma montanha de evidências acumuladas. A ciência trabalha com dúvidas, revisões e correções. O negacionismo trabalha com convicções inabaláveis e conclusões prontas. É justamente por isso que seus adeptos frequentemente confundem o processo científico com uma confissão de culpa.

A ironia é que essa cruzada revisionista interessa muito mais aos influenciadores e militantes do que aos políticos que pretendem vencer eleições. O bolsonarismo pode tentar transformar a pandemia em um capítulo de heroísmo incompreendido, mas o eleitorado parece não compartilhar desse entusiasmo.
Não foi por acaso que Flávio Bolsonaro fez questão de destacar que tomou duas doses da vacina contra a Covid-19. O gesto não foi um acidente de percurso nem uma declaração impensada. Foi um reconhecimento silencioso de que a postura adotada por Jair Bolsonaro durante a crise sanitária continua sendo um peso político considerável.
Os números ajudam a explicar a cautela. Pesquisa da AtlasIntel citada por O Antagonista mostrou que a condução da pandemia figura entre os motivos mais relevantes para a rejeição a uma eventual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Em outras palavras: enquanto a militância tenta vencer discussões do passado nas redes sociais, os estrategistas tentam escapar do passado nas urnas.
É claro que os anos da Covid-19 continuarão sendo objeto de debates. Houve erros, excessos, acertos, decisões difíceis e consequências profundas. Nenhuma democracia saudável deveria temer esse escrutínio. O problema surge quando a discussão deixa de ser uma busca por compreensão e se transforma numa operação de lavanderia política.
O objetivo já não é entender o que aconteceu. É absolver previamente quem errou. É transformar apostas fracassadas em demonstrações de genialidade. É converter desinformação em coragem, improviso em estratégia e teimosia em virtude.
No fim, a insistência em ressuscitar teorias desacreditadas revela menos sobre Anthony Fauci do que sobre os que ainda precisam acreditar nelas.
Afinal, quem passou anos apostando em factoides não está procurando a verdade. Está procurando uma versão dos fatos que seja mais confortável do que os fatos.
Apesar do esforço recorrente de setores do bolsonarismo para ressuscitar velhas narrativas da pandemia, a ciência já deu sua resposta há anos. Estudos clínicos de grande escala e revisões independentes não encontraram evidências robustas de que cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina ou o chamado “tratamento precoce” fossem capazes de prevenir hospitalizações, reduzir mortes ou alterar de forma significativa o curso da Covid-19. O que efetivamente mudou o rumo da crise sanitária foi a vacinação em massa, responsável por reduzir drasticamente os casos graves, as internações e os óbitos em todo o mundo, permitindo a reabertura das economias e a retomada da vida social. Em outras palavras, não foram as apostas do negacionismo que salvaram vidas e evitaram um colapso prolongado, mas a combinação entre ciência, pesquisa e campanhas de imunização em escala global.
*Raphael Anselmo é economista.
**Gustavo Girotto é jornalista.
***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



