sábado, 15 agosto, 2026
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Arte em Foco: Tudo que meu pai me ensinou a ver

Por: Larissa Cabreira*

Meu pai faleceu há quase dez anos. Em novembro, vai completar uma década. E, mesmo depois de tanto tempo, existem datas que fazem a saudade aparecer de um jeito diferente.

Mas, dessa vez, eu não queria falar apenas sobre a falta que ele faz.

Queria falar sobre tudo o que ficou.

Meu pai era uma pessoa extremamente artística. Ele trabalhava com decoração de eventos, era florista, gostava de criar, de inventar e de colocar a mão na massa. Tinha um jeito muito próprio de fazer as coisas e uma criatividade que parecia não ter muita regra.

Ele escrevia bem, desenhava, sabia se comunicar, tinha facilidade com as palavras e, principalmente, tinha uma capacidade impressionante de transformar ideias em alguma coisa concreta. Se aparecesse algo que ele não soubesse fazer, dava um jeito de aprender. Não tinha muito essa história de “não sei fazer”. Ele simplesmente ia lá e tentava.

Acho que essa é uma das características dele que mais reconheço em mim.

Eu tenho muito disso.

Se eu não sei fazer, eu aprendo.

Se não sei por onde começar, procuro.

Se nunca fiz antes, tento.

E, de alguma forma, acho que foi observando meu pai que aprendi que não existe tanta distância assim entre dizer “eu não sei” e dizer “eu ainda não aprendi”.

Isso mudou completamente a minha relação com o mundo.

Meu pai me apresentou à arte muito antes de eu entender que aquilo faria parte da minha vida. Ele me ensinou a prestar atenção nas coisas, a valorizar o que é feito à mão, a perceber beleza em detalhes e a entender que criatividade também é uma forma de comunicação.

Hoje, quando desenho, quando penso em uma imagem, quando trabalho com comunicação ou quando preciso encontrar uma solução para alguma coisa, em quase todas as vezes reconheço um pouco dele ali.

É engraçado pensar que algumas das coisas que fazem parte de quem somos começam muito antes de a gente escolher quem quer ser.

Talvez eu tenha escolhido a ilustração, a comunicação e a arte ao longo da vida. Mas também acho que, de certa forma, fui apresentada a elas muito antes.

E talvez seja isso que os pais fazem quando estão presentes na nossa formação.

Eles não necessariamente entregam um caminho pronto. Às vezes, eles só apresentam possibilidades.

Mostram uma música.

Ensinam alguma coisa com as próprias mãos.

Incentivam uma curiosidade.

Mostram um jeito diferente de olhar.

E, quando a gente percebe, aquilo já faz parte de quem somos.

Eu tive muita sorte nesse sentido.

Tive um pai que me mostrou que criar não precisa ser complicado. Que aprender pode ser divertido. Que é possível transformar uma ideia em alguma coisa concreta. E que sempre existe uma maneira de tentar de novo.

Hoje, olhando para a minha trajetória, consigo perceber quantas partes dele continuam comigo.

Talvez na forma como observo uma imagem. Talvez na maneira como gosto de criar. Talvez nessa minha mania de querer aprender a fazer tudo.

E é por isso que, quando penso em arte, não penso apenas em quadros, desenhos, filmes ou músicas.

Penso também nas pessoas que nos ensinaram a enxergar.

Meu pai foi uma dessas pessoas para mim.

E, mesmo que eu não possa mais mostrar para ele o que estou criando, cada vez que faço alguma coisa nova, existe uma pequena parte dele ali.

No meu olhar.

Nas minhas mãos.

Na minha curiosidade.

E em tudo aquilo que eu ainda quero aprender.

Talvez esse seja um dos maiores presentes que alguém pode deixar: não apenas lembranças, mas uma maneira de continuar vendo o mundo.

E, se hoje eu consigo encontrar arte em tantos lugares, talvez seja porque alguém, lá atrás, me ensinou primeiro a olhar.

*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor