sexta-feira, 3 julho, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Artigo – Mel Brooks: 100 anos de um homem que ensinou o mundo a rir de tudo

Por: Ruan Reis*

Celebrar os 100 anos de Mel Brooks, comemorado em 28 de junho, é celebrar uma das maiores revoluções da história da comédia. Poucos artistas conseguiram transformar o humor Nonsense em uma linguagem tão inteligente e, ao mesmo tempo popular. Brooks não apenas fez filmes engraçados. Ele mudou a maneira como entendemos a paródia, a sátira do absurdo.

Quando penso na minha formação como humorista, é impossível não reconhecer a influência que Mel Brooks exerceu sobre o meu trabalho. Mesmo que meu primeiro contato com seu trabalho, foi na minha infância assistindo “S.O.S Tem Um Louco Solto No Espaço” titulo esse que convenhamos, era melhor ter deixado sem tradução já que o original era “Space Balls” mas… fazer o que, puro suco dos anos 80.

Quando me deparei com esse trabalho de Brooks, antes de compreender tecnicamente o que ele fazia, eu já entendia o efeito que suas obras causavam: era um humor que surpreendia, quebrava expectativas e fazia rir justamente porque recusava qualquer compromisso com a lógica convencional.

Hoje ao redescobrir seu trabalho já “adulto” e reasistindo clássicos como Banzé no Oeste, O Jovem Frankenstein, Alta Ansiedade ou Drácula: Morto, mas Feliz, percebi que a comédia podia funcionar em vários níveis ao mesmo tempo. Havia piadas visuais, diálogos rápidos, referências cinematográficas, improviso, exagero e uma coragem quase irresponsável de brincar com temas considerados intocáveis.

Essa talvez seja sua maior contribuição: Mel Brooks nunca acreditou que o humor deveria pedir licença, ou ser “quadrado” como as comédias de sua época eram.

Existe uma fórmula recorrente em sua obra que sempre me fascinou. Brooks parte de um universo conhecido pelo público, usa um gênero de cinema, e um personagem clássico para desconstruí-lo completamente. Ele respeita o material original o suficiente para conhecê-lo profundamente, mas o ama tanto que pode rir dele sem destruí-lo. É uma diferença importante. Sua paródia nunca nasce do desprezo, nasce da admiração. Como em “O Jovem Frankenstein” que parodia a história clássica do monstro e usa as cores e fotografias mais próximas do filme de 1931, baseado no romance de Mery Shelley.

Ou em outros casos como Space Balls em que Brooks resolve brincar com toda franquia Star Wars, não só parodiando a forma, mas também com o fato da mesma se expandir apenas para ganhar mais dinheiro.

Em resumo, esse conceito acabou influenciando muito minha maneira de construir humor. Hoje quando escrevo um esquete, penso constantemente na expectativa do público. Se todos imaginam que uma cena seguirá determinado caminho, meu objetivo passa a ser justamente quebrar essa lógica. Brooks fazia isso o tempo inteiro. O espectador acreditava conhecer as regras da história, mas, de repente, tudo desmoronava da forma mais absurda possível.

Também aprendi com ele o valor do ritmo. Muitas pessoas imaginam que a comédia depende apenas de uma boa piada. Brooks prova exatamente o contrário. A construção da piada é quase matemática. Existe tempo, pausa, repetição, silêncio, aceleração e surpresa. Cada detalhe influencia diretamente o riso.

Essa percepção acabou moldando meu trabalho tanto no palco quanto na escrita. Outro elemento marcante é sua confiança na inteligência do público. Brooks nunca simplificou suas referências. Pelo contrário. Muitas vezes ele apostava que parte da plateia não entenderia determinada piada imediatamente, e isso nunca foi um problema. Ele acreditava que o humor poderia ser sofisticado sem deixar de ser popular.

Em uma época em que tantos humoristas evitam determinados assuntos por medo da reação do público, Mel Brooks sempre defendeu que o humor possui uma função quase terapêutica. Para ele, rir do medo era uma maneira de diminuir seu poder. Rir dos tiranos era uma forma de derrotá-los. Rir das tragédias humanas não significava desrespeitá-las, mas impedir que elas monopolizassem nossa capacidade de seguir em frente.

Brooks nunca fez humor para atacar os vulneráveis. Seu alvo sempre foi o poder, o autoritarismo, a pompa e a pretensão. Seu humor desmonta figuras que se levam excessivamente a sério e lembra que ninguém é grande demais para não virar piada.

Aos 100 anos, sua importância ultrapassa a filmografia. Seu legado está presente em milhares de humoristas, roteiristas, atores e grupos de teatro que talvez nem percebam o quanto beberam de sua fonte.

Se hoje busco construir um humor que misture improviso, absurdo, referências culturais e uma constante quebra de expectativas, muito disso começou quando descobri que um diretor americano era capaz de transformar qualquer gênero cinematográfico em uma grande brincadeira sem jamais perder o respeito pelo cinema ou pelo público.

É lembrar que rir continua sendo uma das formas mais inteligentes de pensar o mundo. E, para quem vive da comédia, poucas homenagens podem ser maiores do que reconhecer aqueles que nos ensinaram a encontrar humor onde ninguém mais enxergava.

*Ruan Reis é um apaixonado por bom humor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.