sábado, 20 junho, 2026

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Crônica: Narciso às avessas que cospe na própria imagem

 

Por: Sérgio Sant’Anna*

A cada quatro anos, o Brasil parece trocar de roupa. As ruas ganham bandeiras, as janelas vestem verde e amarelo, os vendedores ambulantes reaparecem com cornetas e camisas, e até aquele vizinho que mal cumprimenta os demais passa a discutir escalações. A Copa do Mundo possui um estranho poder: suspende temporariamente as diferenças e cria a ilusão de que somos uma única torcida.

É curioso perceber como o futebol consegue mobilizar emoções que a política, a educação ou a ciência raramente despertam. Talvez porque, como dizia Aristóteles, o ser humano seja um animal político, mas o brasileiro, por vezes, pareça ser também um animal futebolístico. Durante noventa minutos, a vida cotidiana entra em estado de espera.

Entretanto, enquanto a bola rola, muitos problemas permanecem estacionados. A fila dos hospitais continua extensa, a violência urbana segue impondo medo, a desigualdade social resiste ao tempo, escolas enfrentam dificuldades estruturais e milhões de brasileiros ainda convivem com a insegurança alimentar. O apito inicial não interrompe a realidade.

Nesta Copa, os debates parecem até maiores do que os jogos. Neymar, durante anos símbolo da seleção, não estará em campo. Sua ausência provoca discussões sobre renovação, dependência de ídolos e a dificuldade histórica do futebol brasileiro em construir sucessores para seus grandes craques. Afinal, depois de Pelé, Zico, Romário, Ronaldo e tantos outros, cada geração parece carregar a obrigação de produzir um novo salvador.

Como se não bastasse, os bastidores da Confederação Brasileira de Futebol ocupam manchetes tanto quanto os gramados. O envolvimento do presidente da CBF em escândalos relacionados à sua vida pessoal transformou o futebol em assunto de colunas esportivas e também de entretenimento. Mais uma vez, percebe-se que o espetáculo brasileiro raramente se limita às quatro linhas.

Outra novidade é a presença de um treinador estrangeiro no comando da seleção. Para alguns, sinal de modernização; para outros, uma espécie de ferida no orgulho nacional. O debate lembra a velha pergunta sobre identidade: precisamos buscar fora aquilo que não conseguimos construir dentro? O futebol tornou-se espelho de uma discussão muito maior sobre competência, tradição e inovação.

Nelson Rodrigues dizia que “o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. Talvez a frase explique parte das reações. Quando vencemos, somos os melhores do mundo; quando perdemos, declaramos o fim do futebol nacional. Entre a arrogância e o pessimismo, seguimos procurando um equilíbrio que raramente encontramos.

As Copas campeãs ajudam a entender essa paixão. Em 1958, o país descobria um jovem Pelé e alimentava o sonho desenvolvimentista. Em 1970, sob os ecos da ditadura militar, a conquista foi utilizada como símbolo de unidade nacional. Em 1994, embalados pela estabilidade econômica que surgia, os brasileiros voltaram a erguer a taça após vinte e quatro anos. Em 2002, a geração de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho devolveu ao país a sensação de invencibilidade.

Cada Copa também possui sua trilha sonora. É impossível não lembrar de “Pra Frente Brasil”, que marcou gerações, ou do verso de Jorge Ben Jor: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. A música costuma traduzir aquilo que as estatísticas não conseguem medir: o estado emocional de um povo inteiro.

As telenovelas, por sua vez, frequentemente acompanham esse clima. Entre um capítulo e outro, personagens discutem resultados, reproduzindo aquilo que acontece nas casas brasileiras. A ficção encontra a realidade, e o futebol torna-se mais um personagem da cultura nacional. Talvez nenhum outro evento consiga atravessar com tanta facilidade as fronteiras entre esporte, arte e cotidiano.

Todavia, o filósofo Sócrates — não o jogador brasileiro, mas o ateniense — afirmava que “uma vida sem reflexão não merece ser vivida”. E a Copa oferece justamente essa oportunidade: refletir sobre o que celebramos e sobre aquilo que continuamos adiando. Vibrar por uma vitória não deveria significar esquecer os desafios coletivos.

Entre um gol e outro, permanecem as questões fundamentais: como melhorar a educação? Como reduzir as desigualdades? Como garantir segurança, saúde e oportunidades para todos? O entusiasmo do futebol não pode substituir a responsabilidade cidadã. A alegria é necessária, mas não deve ser anestesia.

Quando o árbitro apitar o início da próxima partida, milhões de brasileiros voltarão a sonhar juntos. Alguns acreditarão no hexa, outros discutirão a ausência de Neymar, o técnico estrangeiro ou os escândalos da CBF. E todos terão razão em conversar sobre isso. Porém, quando o torneio terminar e as bandeiras forem guardadas, o país continuará em campo. E esse talvez seja o campeonato mais difícil — e mais importante — que ainda precisamos vencer.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.