Por: Sérgio Sant’Anna*
Nas salas de aula brasileiras, há um silêncio curioso: fala-se muito, escreve-se pouco e compreende-se menos ainda. O estudante lê um parágrafo e tropeça em palavras simples; o adulto desliza os olhos pelas manchetes sem alcançar o sentido profundo do texto. Em tempos de mensagens curtas e vídeos acelerados, o vocabulário do cidadão parece emagrecer diariamente. A língua, que antes era ponte para a reflexão, tornou-se apenas ferramenta de sobrevivência instantânea. E, enquanto isso, o pensamento crítico vai desaparecendo discretamente, como uma biblioteca abandonada em uma cidade que trocou livros por notificações.
O filósofo Byung-Chul Han afirma que vivemos na “sociedade do cansaço”, na qual o excesso de estímulos destrói a contemplação. O brasileiro contemporâneo já não para para interpretar; ele apenas reage. O estudante recebe dezenas de vídeos curtos por minuto, mas é incapaz de sustentar cinco minutos diante de um texto dissertativo. A leitura exige silêncio interior, enquanto a internet oferece ruído constante. Nesse cenário, a palavra perde profundidade e vira fragmento.
Não por acaso, Paulo Freire defendia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Entretanto, hoje muitos sequer conseguem realizar qualquer uma das duas. Há alunos que leem “metáfora” e acreditam ser nome de aplicativo; adultos que interpretam ironias como ofensas literais; cidadãos incapazes de compreender contratos, notícias ou discursos políticos. Sem interpretação textual, a sociedade torna-se presa fácil da manipulação. Quem não entende o que lê acaba acreditando em tudo o que vê.
O problema não nasce apenas da escola, mas de uma cultura inteira que desaprendeu a valorizar a linguagem. O Realismo já denunciava a brutalidade das desigualdades sociais e intelectuais no século XIX. Machado de Assis ironizava personagens vazios, presos às aparências e incapazes de enxergar a própria ignorância. Talvez Brás Cubas sobrevivesse perfeitamente na era digital: faria vídeos opinando sobre tudo sem compreender quase nada.
O celular transformou-se na nova extensão do corpo humano. Crianças recebem telas antes mesmo de aprenderem a formular frases completas. O resultado é uma geração que domina emojis, mas desconhece sinônimos; que compartilha memes, mas não compreende um editorial. A internet democratizou o acesso à informação, mas também banalizou o conhecimento. O filósofo Zygmunt Bauman dizia que a modernidade líquida dissolve estruturas sólidas. Hoje, dissolvem-se também as palavras: tudo precisa ser rápido, resumido e superficial.
O Existencialismo defendia que o homem constrói sua própria consciência por meio da reflexão sobre si e sobre o mundo. Contudo, como refletir em meio a vídeos de quinze segundos, notificações incessantes e músicas transformadas em refrões repetitivos? Muitas canções atuais trocam poesia por repetições mecânicas, enquanto clássicos da Tropicália ou da MPB, compostos por artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso, exigiam interpretação, metáfora e sensibilidade linguística. Antes, a música fazia pensar; hoje, muitas vezes, apenas distrai.
Nas escolas, o professor trava uma batalha desigual. Enquanto tenta apresentar Dom Casmurro, compete contra algoritmos desenhados para capturar atenção instantânea. O aluno acostumado a rolar a tela freneticamente considera cansativo qualquer texto com mais de três parágrafos. Ler tornou-se “difícil”; interpretar, então, virou quase ato revolucionário. A consequência aparece nas redações escolares: pobreza vocabular, argumentos frágeis e incapacidade de estabelecer conexões entre ideias.
O Iluminismo acreditava que o conhecimento libertaria o ser humano da ignorância. Porém, a sociedade contemporânea vive uma contradição cruel: nunca houve tanto acesso à informação, mas nunca foi tão difícil transformar informação em conhecimento verdadeiro. O cidadão lê manchetes sem verificar fontes, assiste cortes de debates sem contexto e transforma opinião superficial em verdade absoluta. A velocidade venceu a profundidade.
Talvez o maior drama não seja apenas a limitação vocabular, mas a limitação da própria consciência crítica. Quem possui poucas palavras possui também menos ferramentas para compreender a realidade. O vocabulário amplia o pensamento; a leitura fortalece a autonomia; a interpretação protege contra manipulações. Quando a linguagem empobrece, a democracia enfraquece junto. Um povo que não lê torna-se facilmente conduzido por slogans.
No fundo, a crise vocabular brasileira não é apenas educacional — é civilizatória. Ela revela uma sociedade que trocou bibliotecas por timelines, reflexão por impulsos e diálogo por comentários agressivos. Enquanto isso, professores insistem heroicamente em ensinar interpretação textual em meio ao barulho digital. Talvez ainda exista esperança. Mas ela dependerá da coragem de recuperar o valor da palavra, do livro e da escuta. Porque, quando uma sociedade perde o domínio da linguagem, perde também parte de sua humanidade.



