Por: Sérgio Sant’Anna*
A ausência de narrativas é preocupante. E isso não é sinal de evolução. Rodas em torno do fogo ou cadeiras na frente de casa perderam espaços para a rolagem das telas de celulares. Eles não possuem mais tempo para escutar histórias e nem há criatividade e paciência para elaborá-las e contá-las. Somos tomados pela ansiedade laboral, pela perda familiar em detrimento do consumismo, somos assombrados pelos desejos alheios, tornamo-nos narcisos da contemporaneidade.
Todos os domingos meus pais tinham o hábito de almoçarem nos meus avós maternos, e isso se tornou uma prática. O gosto por aquele momento era marcado pelas histórias desfiladas pelos meus avós, uma sucessão de episódios dignos de livros. Romances. Tristes. Felizes. Metafísicos. Todos capítulos atrelados ao sabor da narração que aqueles dois sabiam discorrer. Histórias que se ligavam ao folclore, mas que se confirmavam com a verdadeira certeza que traziam amparados nos filhos como prova ou naqueles tios-avós que não se cansavam de nos visitar, além dos inúmeros primos, portanto, a verdade imperava. Eram assombrações, sacis, mulas-sem-cabeça, luzes pelos caminhos escuros, seres encantados, porém havia as doenças, as febres causadas pelos mosquitos, as perdas familiares frequentes devido a ineficácia da ciência e a ignorância que a não-educação proporcionara, sinais que atinam a desigualdade social ainda presente no país.
As histórias engraçadas perpassavam, eram motivos para risadas constantes, uma felicidade atrelada ao sabor e saber da narração, histórias que hoje carrego com a memória que visita a nostalgia que nunca me abandonou, uma passado cercado pelas palavras, enriquecida pelos vocábulos pontuais, aglomerados às variações linguísticas que muitos insistem em derrubar para se vangloriarem e achar que estão abafando. Um completo sinal do cinismo daqueles que acreditam que aprenderam, todavia com nada da vida conseguiram enriquecer culturalmente, vitalmente.
Os celulares, a tecnologia e, hoje, a inteligência virtual, apagaram estes momentos de narrativas incontáveis, deixando-nos cegos, surdos e mudos diante de nossa incapacidade em aproveitar a vida através da narração. Não se contam mais histórias… ou deixaram para as IAs contarem…
*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



