Onde falta investimento, a arte floresce pela força da paixão
Em meio a um cenário nacional de incertezas orçamentárias, cortes em políticas públicas e reestruturações administrativas, a cultura segue sendo uma das áreas mais negligenciadas pelo poder público. No entanto, é justamente nos lugares onde o investimento é mais escasso que a força da arte se manifesta com maior intensidade. O interior paulista, e em especial Taquaritinga, tem se tornado um exemplo de como a cultura sobrevive — e resiste — mesmo diante da falta de apoio contínuo e de políticas consistentes.
Enquanto os grandes centros concentram os holofotes e os recursos, o interior luta diariamente para manter viva sua identidade cultural. E o faz não por obrigação, mas por amor. Por acreditar que a arte é o fio que costura a história de um povo, o espelho de suas transformações e o alicerce de sua memória coletiva. Cada ensaio de teatro, cada festival de dança, cada exposição de arte local ou sarau comunitário é mais do que um evento: é um ato de resistência silenciosa contra o esquecimento.
Em cidades como Taquaritinga, a cultura pulsa nas praças, nos salões paroquiais, nos corredores das escolas e nos espaços alternativos criados por quem não aceita o apagamento. Mesmo com orçamentos reduzidos, a criatividade floresce. O que falta em recursos, sobra em dedicação. Grupos de dança ensaiam em horários noturnos, atores se reúnem em garagens adaptadas, músicos investem do próprio bolso para gravar suas composições, professores transformam salas de aula em palcos de descoberta e expressão. É essa persistência que mantém viva a chama da cultura — uma chama que o tempo e o descaso não conseguem apagar.
Contudo, não se pode romantizar a resistência. Resistir não é fácil. Resistir é caro, cansativo e, muitas vezes, solitário. O que para o espectador é um espetáculo de uma hora, para o artista é o resultado de meses de esforço invisível, de renúncias, de horas de trabalho sem remuneração e de uma constante batalha contra a desvalorização. Quando o Estado falha em reconhecer a importância da cultura como instrumento de transformação social, ele empurra seus artistas para a marginalidade e condena o desenvolvimento humano à superficialidade.
É importante lembrar que a cultura não é apenas entretenimento — é também educação, economia, inclusão e cidadania. Investir em cultura é investir na formação de indivíduos críticos, na geração de emprego e renda, na ocupação de espaços públicos e na valorização da identidade local. Quando um município deixa de priorizar o setor cultural, ele não apenas perde oportunidades turísticas, mas abre mão de construir uma sociedade mais empática e consciente de si mesma.
Nos últimos anos, Taquaritinga deu passos importantes nesse sentido, com a conquista do título de Município de Interesse Turístico (MIT) e a realização de eventos de grande relevância regional, como o Criarte Festival de Dança, que movimenta o setor e dá visibilidade a talentos locais. Contudo, ainda é preciso ir além dos momentos festivos. A cultura precisa de continuidade, planejamento e investimento estruturado, e não apenas de ações pontuais. Um plano municipal de cultura eficaz, por exemplo, é essencial para garantir que as futuras gerações tenham acesso à arte não como privilégio, mas como direito.
As leis de incentivo, como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, representaram alívios pontuais, mas não resolveram o problema estrutural: a falta de constância. A arte não sobrevive de editais ocasionais; ela precisa de políticas permanentes. É necessário que gestores públicos e legisladores entendam que o investimento em cultura não é gasto, e sim retorno — retorno social, emocional e econômico. A cultura movimenta cadeias produtivas inteiras: do figurino ao som, da hospedagem ao comércio, da cenografia à alimentação. Ela gera trabalho, estimula o turismo e fortalece a imagem da cidade.
No entanto, o que se observa em muitos municípios é a inversão de prioridades. Projetos culturais são vistos como supérfluos, enquanto orçamentos robustos são direcionados a obras de visibilidade imediata. O resultado é uma sociedade desnutrida de sensibilidade, empobrecida de reflexão e desconectada de suas raízes. Uma cidade sem cultura é uma cidade que perde sua alma.
Por outro lado, há também sinais de esperança. A juventude tem ocupado espaços, os coletivos culturais têm se fortalecido, e o público — aos poucos — começa a perceber que a arte é uma necessidade humana, e não apenas um passatempo. Em tempos de intolerância e polarização, a cultura se reafirma como o último reduto da liberdade, um território onde todos podem coexistir e se expressar.
O Jornal O Defensor acredita que a cultura é a base da transformação social. Por isso, reforça seu compromisso em dar voz, visibilidade e espaço às manifestações culturais que fazem de Taquaritinga e região um território de criatividade, pluralidade e resistência. Nossa missão é seguir sendo uma vitrine para a arte e para os artistas que fazem dessa cidade um verdadeiro celeiro de talentos.
É preciso olhar para a cultura não como um favor, mas como uma obrigação cidadã e política. É preciso que o poder público caminhe junto com os artistas e produtores culturais, e não os deixe à própria sorte. É preciso entender que o aplauso não paga contas, mas que o reconhecimento e o investimento geram dignidade. E, acima de tudo, é preciso compreender que preservar a cultura é preservar a própria história.
Enquanto houver quem dance, pinte, escreva, cante, atue, toque ou ensine — a cultura seguirá viva, mesmo entre os cortes e as dificuldades.
E é essa teimosia poética que faz do interior paulista um território de resistência e de esperança. Porque onde falta investimento, a arte floresce pela força da paixão. E essa paixão, ninguém corta.



