quarta-feira, 10 junho, 2026

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Nossa Palavra – O professor herói e invisível: a valorização que nunca chega

Entre aplausos simbólicos e salários defasados, o Brasil segue devendo respeito e dignidade àqueles que formam todas as outras profissões

No calendário, o dia 15 de outubro é dedicado ao professor, o profissional que carrega sobre os ombros a missão mais nobre e, paradoxalmente, a mais negligenciada da sociedade. É a data em que se multiplicam homenagens, frases prontas e campanhas institucionais exaltando sua importância. Mas, passada a efemeridade das palavras bonitas, o que resta é uma dura constatação: o professor brasileiro continua sendo um herói invisível, sobrevivendo à indiferença de governos e à falta de reconhecimento real por parte da sociedade.

Não há nação desenvolvida que tenha alcançado progresso sem investir pesadamente em educação e valorização docente. E, no entanto, o Brasil insiste em andar na contramão da história. Enquanto países que compreenderam a centralidade do ensino destinam parte significativa de seus orçamentos à formação de professores e à infraestrutura escolar, aqui a docência se tornou um exercício de resistência. Os baixos salários, as salas superlotadas, a escassez de recursos e a violência simbólica — e muitas vezes física — são a rotina de quem ainda acredita que educar é transformar.

Em tempos de avanços tecnológicos e informação instantânea, o papel do professor jamais foi tão essencial. É ele quem forma o pensamento crítico, ensina a discernir entre o real e o manipulado, estimula a curiosidade e planta as sementes da cidadania. Ainda assim, a desvalorização é tamanha que muitos jovens talentosos, ao escolherem uma carreira, já não veem na educação uma opção viável. Como querer qualidade no ensino se os profissionais que o sustentam vivem à beira do esgotamento?

Há décadas se fala em reformar o sistema educacional, mas o que se vê é uma sucessão de promessas não cumpridas. Planos nacionais de educação são lançados com pompa e circunstância, mas raramente saem do papel. As escolas públicas — especialmente nas regiões mais carentes — sofrem com falta de estrutura, materiais e, principalmente, respeito institucional. O discurso da valorização docente é repetido à exaustão nos palanques, mas na prática se traduz em salários atrasados, concursos escassos e jornadas desumanas.

E não se trata apenas de dinheiro — embora ele seja fundamental. A verdadeira valorização envolve reconhecimento social, condições dignas de trabalho e apoio emocional. O professor lida com realidades complexas, com estudantes em vulnerabilidade, com pais ausentes e com a cobrança de resultados imediatos em um sistema que falha em todos os níveis. Ainda assim, ele persiste. Cria, adapta, reinventa-se. O professor é, antes de tudo, um sobrevivente.

Há algo de profundamente injusto em uma sociedade que exige tanto de seus educadores e lhes oferece tão pouco em troca. O professor é cobrado como herói, mas tratado como descartável. Espera-se que forme cidadãos conscientes, que enfrente desigualdades estruturais e que faça milagres em salas com goteiras, sem material e com salários que mal cobrem o básico. É como se o país dissesse: “Ensine bem, mas sobreviva como puder”.

A desvalorização docente é, em última instância, um espelho do descaso com o futuro. Porque desrespeitar o professor é comprometer a formação das próximas gerações. É minar o senso crítico, é perpetuar a ignorância e enfraquecer a democracia. Sem professores respeitados e motivados, não há país que avance, por mais que a propaganda oficial tente convencer do contrário.

Este 15 de outubro precisa ser mais do que uma data comemorativa. Precisa ser um grito coletivo de indignação e compromisso. É tempo de exigir que as políticas públicas deixem de ser promessas e se tornem ações concretas. Que os planos de carreira sejam efetivos, que as escolas sejam seguras, que a formação continuada seja acessível, e que a sociedade entenda — de uma vez por todas — que valorizar o professor é valorizar o próprio futuro.

Ao final, fica a reflexão: o quanto de nossa evolução enquanto sociedade depende de um professor que acreditou em nós, mesmo quando ninguém mais acreditava? Se cada cidadão reconhece a importância de quem o ensinou a ler, a pensar e a sonhar, por que o país insiste em virar as costas a esses profissionais?

Valorizar o professor não é favor, é dever. E o Brasil só começará a mudar quando o aplauso simbólico do Dia do Professor se transformar em políticas permanentes de respeito, dignidade e reconhecimento.