terça-feira, 21 abril, 2026

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Artigo: Mounjaro (tirzepatida) e a falta de ética de profissionais que não podem prescrever

Por: Arthur Micheloni*

Nos últimos anos, novas possibilidades surgiram no tratamento da obesidade, e uma delas é o Mounjaro (tirzepatida). O medicamento, originalmente desenvolvido para o controle da diabetes tipo 2, mostrou em estudos clínicos uma ação expressiva na redução de peso. Rapidamente ganhou espaço nas discussões sobre emagrecimento, tornando-se conhecido como uma das ferramentas mais promissoras contra a obesidade. Mas é justamente nessa popularidade que mora o perigo, o uso sem orientação profissional.

É preciso entender que a tirzepatida não é suplemento, nem cápsula de “milagre do emagrecimento”. Trata-se de um fármaco potente, de aplicação injetável, capaz de alterar a forma como o organismo regula a glicose e o apetite. Por isso, é classificado no Brasil como medicamento de prescrição médica obrigatória. Essa exigência está respaldada em legislações nacionais, como a Lei nº 5.991/1973, que define que medicamentos sujeitos a controle especial só podem ser vendidos mediante receita, e a Lei nº 9.782/1999, que atribui à ANVISA o poder de regulamentar e fiscalizar esses produtos.

Infelizmente, temos visto crescer uma prática extremamente preocupante, profissionais que não possuem respaldo legal para prescrever a tirzepatida, como fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, esteticistas e outros, oferecendo a tirzepatida a pacientes de forma clandestina. Essa conduta viola leis brasileiras que determinam que apenas médicos podem prescrever medicamentos de uso controlado. Comprar, vender ou aplicar o Mounjaro sem receita médica e sem acompanhamento especializado não é apenas um risco à saúde, mas também afronta à legislação sanitária vigente. A busca por resultados rápidos jamais pode justificar a irresponsabilidade profissional.

O interesse no medicamento se deve, em grande parte, aos resultados de pesquisas que demonstraram perdas significativas de peso corporal em pacientes acompanhados por equipes médicas. Contudo, seu uso não é isento de riscos, podem ocorrer efeitos adversos como náuseas, vômitos, hipoglicemia e até complicações pancreáticas em casos específicos. A avaliação médica e nutricional é indispensável para indicar a dose correta, o tempo de uso, identificar possíveis contraindicações e adequar a alimentação para que não haja déficit nutricional. Automedicar-se com tirzepatida é brincar com a própria saúde.

Mas há um aspecto que muitas vezes é esquecido nas conversas sobre o Mounjaro, o medicamento sozinho não garante sucesso a longo prazo. A verdadeira diferença está na combinação entre tratamento farmacológico e acompanhamento nutricional adequado. E é aqui que entra o papel central do nutricionista dentro do protocolo de emagrecimento.

O nutricionista é o profissional habilitado para planejar, prescrever e acompanhar planos alimentares que atendam às necessidades específicas de cada pessoa. No caso de pacientes em uso de tirzepatida, esse acompanhamento se torna ainda mais crucial. Isso porque a medicação pode reduzir o apetite de forma intensa, levando muitas pessoas a comer menos do que deveriam. Sem uma orientação adequada, há o risco de deficiências nutricionais importantes, perda de massa muscular e até comprometimento do metabolismo a longo prazo.

O nutricionista dentro do protocolo com Mounjaro atua em várias frentes:

-Planejamento alimentar personalizado: ajustando quantidades e tipos de alimentos para garantir aporte de proteínas, vitaminas e minerais essenciais.

-Preservação da massa magra: estruturando estratégias que favoreçam a manutenção do tecido muscular, fundamental para evitar o temido “efeito sanfona”.

-Educação alimentar: ajudando o paciente a compreender que o medicamento é apenas uma ferramenta, e que os resultados dependem da adoção de novos hábitos.

-Manutenção dos resultados: preparando o paciente para o período após a suspensão do medicamento, quando o controle alimentar será decisivo para não recuperar o peso perdido.

Além disso, o nutricionista é peça-chave no trabalho multidisciplinar junto ao médico. Enquanto o médico avalia a segurança clínica e prescreve o uso do Mounjaro, o nutricionista garante que esse processo seja sustentável e saudável. É a união de ciência e prática, “o remédio ajusta a biologia, mas a nutrição molda o estilo de vida”.

É importante ressaltar também que o emagrecimento não deve ser visto apenas sob o olhar estético. O excesso de peso está ligado a doenças como hipertensão, diabetes, dislipidemias e até alguns tipos de câncer. Portanto, o objetivo final do tratamento deve ser a saúde e a qualidade de vida. Nesse sentido, a presença do nutricionista não apenas potencializa os resultados do medicamento, como amplia seus benefícios para a vida do paciente.

O Mounjaro representa um avanço notável na ciência, mas ele precisa ser usado com responsabilidade. Não se trata de moda passageira nem de promessa milagrosa. O medicamento é apenas uma parte do processo. A outra parte, talvez a mais importante, é construída no dia a dia, com orientação nutricional, mudanças de hábitos e compromisso com a saúde.

Emagrecer é um caminho que exige disciplina, acompanhamento profissional e respeito às leis que regulam os medicamentos no Brasil. Quando ciência, medicina e nutrição caminham juntas, o resultado é mais do que a redução de números na balança, é a conquista de bem-estar, prevenção de doenças e uma vida mais saudável.

Mounjaro não é moda. É responsabilidade. E o nutricionista é peça indispensável nessa jornada.

* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.