terça-feira, 21 abril, 2026

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Coluna Clikando – O tempo e a urgência de viver

Por: Gabriel Bagliotti*

Se existe algo que todos nós, sem exceção, gostaríamos de ter mais, esse algo é o tempo. Eu gostaria, você gostaria, e tenho certeza de que cada pessoa que nos cerca já desejou, em algum momento, que o relógio caminhasse mais devagar. O tempo, afinal, é o senhor da razão — e também da nossa existência. Implacável, ele não se curva diante de nossas vontades, não atende aos nossos pedidos de mais um pouco, não se compadece quando queremos prolongar os momentos bons. Ele apenas segue, constante, e justamente por isso nos obriga a refletir: o que estamos fazendo com o tempo que temos?

Vivemos em uma era de pressa. Os dias parecem curtos, as semanas voam e os anos, quando nos damos conta, já ficaram para trás. E nessa correria, quantas vezes nos pegamos desejando um tempo a mais para viver com mais qualidade? Mais horas com a família, mais conversas com os amigos, mais risadas com os filhos, mais instantes de silêncio com a pessoa amada. Ou ainda mais tempo para nós mesmos, para ler aquele livro que ficou esquecido na estante, para escrever o projeto que repousa engavetado, para descansar sem culpa. O tempo é tão precioso justamente porque é finito, e talvez seja essa a sua maior crueldade e, ao mesmo tempo, sua maior beleza.

Muitas pessoas carregam no coração planos que jamais sairão do papel. Projetos interrompidos, sonhos adiados, vontades sufocadas pela rotina. A verdade é que muitos morrerão sem realizar aquilo que tanto desejavam. Não porque lhes faltou capacidade ou vontade, mas porque o tempo não deu trégua — e porque, em muitos casos, deixamos que ele fosse engolido pela preguiça, pela inércia, pelas desculpas diárias que inventamos para justificar o não agir.

Essa constatação é dura, mas necessária: um dia, o nosso tempo também chegará ao fim. Essa é a única certeza que carregamos, e justamente por isso deveríamos viver cada minuto com mais consciência. A questão não é apenas prolongar o tempo de vida, mas dar vida ao tempo que temos. Fazer o bem enquanto é possível, cultivar gestos de generosidade, evoluir como pessoas, buscar a realização daquilo que nos move de verdade.

Não se trata de uma receita fácil. O mundo moderno nos cobra prazos, nos sufoca com demandas, nos empurra para o imediatismo. Mas talvez o grande segredo esteja em recusar, ao menos de vez em quando, essa lógica da pressa. Dedicar-se ao essencial, enxergar no outro não apenas um rosto apressado, mas uma oportunidade de compartilhar momentos. Valorizar as pequenas coisas: o café em família, o sorriso inesperado, a conversa despretensiosa, o abraço demorado. Porque no fim, quando o tempo se esgotar, são esses instantes que terão valido mais.

Por isso, viver é um exercício de escolha. Escolher não deixar que os dias se tornem apenas números no calendário. Escolher dar espaço para aquilo que nos faz bem. Escolher não adiar tanto aquilo que pode ser feito agora. O tempo não vai parar para nos esperar. E, por mais que essa verdade seja incômoda, ela também é libertadora: se não temos controle sobre o tempo, temos, sim, sobre a forma como o utilizamos.

Talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja “quanto tempo me resta?”, mas sim “o que estou fazendo com o tempo que tenho?”. Essa é uma provocação que me faço diariamente, e que compartilho aqui com você. Porque, se o tempo é implacável, nós também podemos ser determinados. Determinados a viver melhor, a realizar mais, a deixar marcas positivas no caminho. O relógio não para, mas ainda assim, dentro das horas que correm, podemos criar eternidades.

*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.