terça-feira, 21 abril, 2026

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Saúde: Endometriose, a dor invisível que atinge milhões de brasileiras

A doença crônica que afeta o útero e órgãos reprodutivos ainda é subdiagnosticada e provoca impacto profundo na saúde, na vida social e na produtividade das mulheres

A endometriose é uma doença ginecológica crônica que atinge aproximadamente 6 a 10 milhões de mulheres em idade fértil no Brasil, conforme dados da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE). Caracteriza-se pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, provocando dor intensa, inflamação, alterações no ciclo menstrual e, em muitos casos, infertilidade. Apesar do avanço da medicina, muitas mulheres enfrentam anos de sofrimento antes do diagnóstico, refletindo lacunas de conscientização, desigualdades regionais e deficiências no acesso ao tratamento.

Um diagnóstico tardio e suas consequências

Estudos nacionais apontam que o tempo médio para diagnóstico da endometriose no Brasil varia de 7 a 10 anos, muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que alerta para a necessidade de identificação precoce da doença. Durante esse período, a endometriose pode progredir silenciosamente, causando complicações graves, como aderências, cistos ovarianos, infertilidade e dor crônica incapacitante.

Segundo dados do Ministério da Saúde, aproximadamente 30% dos casos de infertilidade feminina estão associados à endometriose, tornando a doença um dos principais fatores de busca por tratamentos de reprodução assistida no país. Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, 2023) revelou ainda que mulheres diagnosticadas enfrentam redução significativa da qualidade de vida, aumento de sintomas depressivos e ansiedade, além de comprometimento da produtividade no trabalho.

Outro estudo da FEBRASGO (2024) indicou que mais de 60% das mulheres desconheciam a doença antes do diagnóstico. Muitas normalizam a dor menstrual intensa ou a consideram parte do ciclo natural, atrasando ainda mais a busca por atendimento especializado. Essa percepção social reforça o estigma e contribui para a invisibilidade da doença.

Acesso desigual a tratamento

O tratamento da endometriose combina medicação, acompanhamento clínico e, em casos específicos, intervenção cirúrgica. No entanto, a realidade brasileira evidencia desigualdades significativas. Apenas 42% das mulheres com endometriose possuem acesso contínuo a centros especializados pelo SUS, segundo levantamento do Ministério da Saúde. Nas regiões Norte e Nordeste, a carência de serviços qualificados é ainda maior, o que força muitas pacientes a se deslocarem para outros estados ou recorrerem ao setor privado, enfrentando custos elevados com consultas, exames e cirurgias.

A falta de especialistas capacitados contribui para o diagnóstico tardio, enquanto a ausência de políticas públicas abrangentes compromete o acompanhamento contínuo e o tratamento de longo prazo. Medicamentos essenciais, como hormônios e anti-inflamatórios, nem sempre estão disponíveis nas unidades de saúde, aumentando o sofrimento físico e psicológico das pacientes.

Impactos sociais e profissionais

A endometriose não afeta apenas a saúde física; o impacto social e econômico é profundo. Dados da Fiocruz apontam que a doença é responsável por absenteísmo e presenteísmo: mulheres com dor crônica frequente têm dificuldade de cumprir jornadas de trabalho completas, afetando sua estabilidade profissional e renda familiar.

Na adolescência, a doença compromete a vida escolar, dificultando a participação em atividades extracurriculares e reduzindo o desempenho acadêmico. A pesquisa da FEBRASGO (2024) aponta que muitas jovens abandonam atividades físicas e sociais devido à dor intensa, perpetuando isolamento e desgaste emocional.

Conscientização e educação em saúde

A invisibilidade da endometriose é reforçada pelo tabu em torno da menstruação e da dor feminina. Campanhas de informação, como as promovidas pela Sociedade Brasileira de Endometriose e grupos de apoio, têm buscado sensibilizar a sociedade e capacitar profissionais de saúde. Iniciativas de educação menstrual e divulgação de sinais precoces da doença podem reduzir o tempo até o diagnóstico e melhorar a qualidade de vida das pacientes.

Além disso, a incorporação de protocolos clínicos padronizados nas unidades de saúde pública e o treinamento contínuo de ginecologistas são estratégias essenciais para o reconhecimento precoce e o tratamento adequado da doença.

Pesquisas e avanços científicos

A pesquisa científica no Brasil tem avançado em diferentes frentes, incluindo diagnóstico por imagem, terapias hormonais e cirúrgicas minimamente invasivas. O CNPq e universidades federais têm promovido estudos sobre o impacto da endometriose na fertilidade, dor crônica e saúde mental. No entanto, ainda há lacunas significativas na compreensão da doença em suas formas mais severas, especialmente na relação entre inflamação sistêmica e comorbidades como depressão e fadiga crônica.

A endometriose é mais do que uma doença ginecológica: é um fenômeno que evidencia desigualdades estruturais, fragilidades do sistema de saúde e a urgência de políticas públicas integradas voltadas à saúde feminina. Garantir diagnóstico precoce, tratamento adequado, acesso a medicamentos e acompanhamento multidisciplinar é fundamental para que milhões de brasileiras possam viver com saúde, dignidade e autonomia.

Romper com o silêncio e o estigma que cercam a doença é também um ato de justiça social: reconhecer que a dor feminina não deve ser invisível e que a saúde das mulheres é prioridade coletiva.