Por: Lucas Fanelli*
Olá caros leitores, vamos falar sobre Stephen King, disfarçado de Richard Bachman? Lá em 1979 King lança A Longa Marcha com seu pseudônimo, uma história que não dá folga: cem jovens, ou menos, se tiverem fraqueza, são obrigados a caminhar sem parar, até que reste apenas um vivo.
Logo de cara, a ideia é absurda e por isso mesmo fascinante: não é sobre andar bonito, é sobre resistir. Tolices comuns, fantasmas ou monstros sobrenaturais não acontecem aqui, o inimigo é o corpo, a mente, o tédio mortal de pensar a cada passo “será que agora?”.
O livro é angustiante, claustrofóbico mesmo com estrada infinita, contra o relógio invisível da exaustão. Você sente dor nas pernas, sede, arrependimento e, pior, inveja daquele que consegue dormir.
E aí chega o filme A Longa Marcha – Caminhe ou Morra (direção de Francis Lawrence, roteiro de J.T. Mollner), trazendo essa loucura distópica pra telas, com sangue, tensão e gente andando (muito) mesmo.
O filme não alivia: mostra as cenas cruéis, algumas que até deixaram o próprio King acordado à noite, como a das consequências físicas extremas, afinal, ele exigiu que houvesse balas em adolescentes quando há infração.
Visualmente, o filme parece não fugir muito do espírito do livro: paisagens áridas, calor sufocante, trejeitos de corpo cansado, sombra cruel, silêncios longos — tudo isso ajuda a criar um clima pesado. Se há algo a se criticar, talvez seja que o espectador que ama a leitura imagina cada passo de forma diferente, cada dor, cada vontade de parar. Adaptar isso exige escolhas: cortar, alongar, mostrar o que era só sugerido no livro.
E há também a questão moral: esse “evento público” que espectadores assistem, como um jogo de espetáculo cruel. No livro, King já cutucava isso; no filme, parece que ele crava a unha. É impossível não pensar: isso é ficção, mas e se não fosse?
Por fim, a experiência de assistir será provavelmente brutal, tanto quanto a de ler. Se você pensa em ir ao cinema achando que vai só “assistir uns meninos caminhando”, cuidado: pode sair de lá suando frio, pensando em todas as suas escolhas. E apreciando os tênis que você tem.



