sábado, 2 maio, 2026

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Nossa Palavra –  O peso do tabu

Por que ainda temos medo de falar sobre suicídio?

Falar sobre suicídio ainda é um desafio. A sociedade, em sua maioria, prefere o silêncio, como se a omissão fosse suficiente para afastar uma realidade que assusta. Contudo, o silêncio não protege; ao contrário, aprofundar o tabu é colaborar com a invisibilidade de uma dor que cresce todos os dias.

Durante décadas, o tema foi envolto em mitos, preconceitos e receios. Houve quem acreditasse que falar sobre suicídio “incentivaria” a prática. Hoje, pesquisas sérias e experiências concretas mostram o contrário: o diálogo responsável é a primeira arma na prevenção. Ignorar o problema apenas abre espaço para que ele se intensifique, escondido nos recantos da solidão e do sofrimento.

O Brasil registra milhares de mortes anuais por suicídio, mas ainda assim a questão permanece à margem do debate público. Por que tratamos com naturalidade estatísticas sobre violência no trânsito ou crimes urbanos, mas nos constrangemos diante de números de vidas ceifadas pela própria mão? A resposta é dura: há um estigma que associa o sofrimento emocional à fraqueza ou ao fracasso pessoal. É como se admitir a dor fosse, em si, um erro.

Esse julgamento social não apenas agrava o sofrimento das vítimas, mas também impede familiares, amigos e comunidades de buscarem apoio. O tabu cria muros quando o que mais se precisa são pontes. Ele cala pais que percebem mudanças bruscas no comportamento dos filhos, professores que testemunham sinais de alerta em sala de aula, colegas de trabalho que percebem o isolamento de alguém próximo. E, no fim, o silêncio se transforma em cumplicidade involuntária.

É preciso compreender que falar não mata — ao contrário, pode salvar. Conversar sobre saúde mental, acolher sem julgamentos, divulgar canais de apoio e exigir políticas públicas eficazes são atitudes que transformam a realidade. Quando o tema ganha espaço legítimo no debate social, a prevenção deixa de ser discurso e se torna prática.

Aos poucos, a sociedade brasileira tem dado passos importantes nesse sentido. Campanhas como o Setembro Amarelo ajudam a romper barreiras, mas ainda não são suficientes. O desafio é fazer do diálogo uma prática cotidiana, livre do peso do estigma. Isso significa abrir espaço em escolas, igrejas, associações de bairro, empresas e, sobretudo, dentro dos lares.

Se quisermos reduzir as estatísticas, o primeiro passo é simples e urgente: precisamos falar, escutar e acolher. O silêncio que hoje parece confortável é, na verdade, cúmplice de uma tragédia que podemos evitar.