Às vezes os deuses da literatura nos presenteiam com eventos saborosíssimos.
Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Patrícia Melo, uma de nossas maiores escritoras contemporâneas, possui um livro chamado “O matador”. Não entrarei em detalhes, ao menos nesta crônica, sobre o enredo da obra, pois o que me interessa momentaneamente é descrever uma anedota presente em suas páginas, mas precisamente na de número 118, logo no início do capítulo 22. Nele, uma personagem conta que seu pai um dia lhe contou uma história que lera em um “livro policial de um escritor muito famoso” — é assim que somos apresentados à metaliteratura que está por vir. Nesta obra, a personagem diz, havia uma mulher que procurava um detetive particular pois seu amado marido sumira, sem mais nem menos, simplesmente virara pó. Tratava-se de um caso singular, pois esse homem em questão levava uma vida medíocre no entanto feliz. Não tinha grandes posses, nem tomara nenhum tipo de prejuízo financeiro; sem grandes virtudes, mas um bom marido, um bom pai. Uma existência insípida e incapaz de produzir alg que pudesse indicar ou justificar tal sumiço disruptivo. Aos leitores de tal gênero, um clássico enigma inescrutável, como preconizou Edgar Allan Poe no século XIX. A personagem continua contando a história que ouvira de seu progenitor, mas não irei entregá-la agora a vocês. Em nome do decoro, farei suspense.
O ponto todo é que, interessado pelo enigma e principalmente pela referência obscura de um livro policial escrito por um escritor famoso, perguntava-me de que outra obra Patrícia Melo, através do discurso de sua personagem, havia bebido para estabelecer aquela intertextualidade, afinal não me parecia ser algo inventado, do contrário seria raso demais para a fina pena da autora.
Vida que segue, livros que se seguem. Terminei este e na exata sequência puxei outro de minha estante: O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett. Tenho em minhas mãos a edição de L&PM, capa escura e páginas alvas. A traços cartunescos, uma mão segura um .38 apontado para você, leitor, o título serve de base para o pouso da ave que é o seu elemento central, mais acima o nome do renomado autor norte-americano. Na página 77, primeira lauda do capítulo 7, Sam Spade, o famoso detetive de Hammett, enquanto aguarda com sua femme fatale um certo homem misterioso, resolve matar o tempo contando à bela moça uma história que viveu em longínquos tempos de sua carreira investigativa. Para a minha surpresa, trata-se da mesma história misteriosamente mencionada por Patrícia Melo no livro que acabara de fechar.
Spade conta que este homem, de nome Flitcraft, fora encontrado por ele em uma outra cidade, com uma outra esposa com a qual constituíra uma outra família; tudo isso sem nenhum tipo de peso em sua consciência, uma vez que deixara sua antiga família relativamente bem amparada. Muito bem, porém isso não resolve o mistério. O que o fez tomar tal decisão? Segundo Sam, em um dia qualquer, saíra de seu escritório para almoçar em um restaurante qualquer de sua vida qualquer e nas imediações, ao passar por um prédio em construção, uma viga despenca e caí caprichosamente ao seu lado, causando-lhe não mais do que um arranhão em seu rosto. Caso este homem estivesse um centímetro a mais para o lado, caso esta viga resolvesse despencar um centímetro a mais parado o lado, estaria morto. Contemplar tamanha fugacidade que pode a qualquer momento abater nossa tacanha existência, nas palavras do sobrevivente, o fez se sentir como “se alguém tivesse levantado a tampa da vida e tivesse deixado que ele visse o seu mecanismo interno”. Aqui me lembrei de Drummond e sua poesia, a máquina do mundo que se abre ao caminhante da estrada pedregosa de Minas.
Esse evento o despertou, fora como se a experiência de quase morte lhe provocasse uma sobrevida na qual tudo precisaria ser diferente e assim o fez. Contudo, quando tempos depois foi encontrado por Sam Spade, este notou que sua vida não possuía mais nada de novo, pelo contrário, voltara a um tipo paralelo da mesma rotina que lavava antes da viga. O detetive termina o seu relato dizendo o seguinte: “Mas essa é a parte da história de que sempre gostei. Ele se adaptou a vigas que caem do nada, mas depois não caiu mais viga nenhuma e ele se adaptou à circunstância de elas não caírem mais.”
Quanto a mim, dada à incrível coincidência, senti-me quase atingido por duas vigas, como dois raios que caíram no mesmo e incorreto lugar. Indo além da literatura, e cumprindo o seu papel mais belo, penso sobre as vigas que despencam também em nossas vidas, espero que nenhuma nos acertem, que consigamos nos adaptar a elas e a suas ausências.



