Confissão mistura fatos e fantasia, e Polícia Civil ainda investiga outras linhas como crime político ou passional
Na manhã desta segunda-feira, 14 de julho, o delegado Dr. Claudemir Aparecido Pereira da Silva, titular da Delegacia de Polícia de Taquaritinga, convocou a imprensa local e regional para uma coletiva, com o objetivo de apresentar os primeiros detalhes sobre o depoimento do adolescente de 17 anos apreendido no último sábado (12), na cidade de Itapema, Santa Catarina, sob suspeita de envolvimento na morte do ex-prefeito Vanderlei Mársico.
O jovem, que possui histórico de passagens pela Fundação Casa por tráfico de drogas e furtos, confessou participação no crime, mas se recusou a revelar os nomes dos demais envolvidos, dificultando, segundo a Polícia Civil, o avanço imediato nas prisões dos outros suspeitos.
De acordo com o delegado, o depoimento do menor é considerado inconsistente e mistura fatos com elementos fantasiosos. A narrativa apresentada pelo jovem será tratada com cautela. “Ele detalhou a ação, mas a motivação, por exemplo, não se sustenta completamente. É necessário separar o que é verdade do que ele pode estar inventando ou omitindo”, destacou Claudemir.
Dinâmica do crime
No relato à polícia, o adolescente afirmou que acessou a residência do ex-prefeito Vanderlei Mársico pulando o portão e encontrando a porta dos fundos aberta. Ele teria então se dirigido diretamente ao quarto, onde encontrou a vítima dormindo.
“Segundo o menor, ao se aproximar da cama, o ex-prefeito teria acordado. Neste momento, ele aplicou um golpe conhecido como ‘mata-leão’, tentando imobilizá-lo. Ainda conforme o depoimento, Mársico reagiu, e então foi agredido com tapas e socos. O menor sustentou o golpe até o ex-prefeito perder os sentidos”, explicou o delegado.
Mesmo diante da violência, o adolescente afirmou que a vítima ainda estava viva ao deixarem o local, acrescentando que, ao esboçar nova reação, teria introduzido uma meia na boca de Mársico, o que o fez “perder os sentidos novamente”. A polícia, no entanto, aguarda laudos periciais que poderão comprovar se a morte ocorreu no momento da agressão ou após a saída dos autores.
Motivações ainda são incertas
Sobre a motivação do crime, o menor relatou que dias antes teria pedido uma carona a Vanderlei Mársico, quando o encontrou no bairro Jardim São Sebastião, onde mora. Segundo ele, após a recusa do ex-prefeito e uma discussão, passou a “arquitetar o crime”.
Essa versão é considerada frágil pelas autoridades. “Há muitos pontos desconexos, principalmente nas justificativas. O adolescente mistura fatos com suposições, e por isso mantemos todas as linhas de investigação em aberto”, afirmou Claudemir.
A Polícia Civil trabalha com o latrocínio (roubo seguido de morte) como a hipótese mais concreta no momento. O veículo da vítima, um carro de passeio, além de uma corrente de ouro e um celular, foram levados durante a ação. O automóvel foi recuperado ainda durante a investigação, mas os demais objetos ainda não foram localizados.
Investigações em andamento
A operação que resultou na apreensão do menor foi coordenada pelo delegado Luiz Fernando Machado e Dr. Fábio com apoio de seis agentes, e percorreu os estados do Paraná e Santa Catarina, onde o adolescente se encontrava foragido desde o crime, ocorrido na manhã de quinta-feira, 10 de julho. A equipe retornou a Taquaritinga no domingo (13), após mais de 12 horas de viagem.
O adolescente será encaminhado à Fundação Casa, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente, enquanto a polícia prossegue com as diligências para identificar e capturar os demais envolvidos.
Sobre a possibilidade de motivação política ou passional, o delegado reiterou que nenhuma hipótese está descartada. “Iniciamos a apuração por latrocínio, pois é o que temos de mais concreto até aqui. Mas isso não exclui outras possibilidades, como crime encomendado, vingança pessoal ou motivação política. Precisamos de mais elementos e estamos trabalhando intensamente nisso”, concluiu.
Relembre o caso
O ex-prefeito Vanderlei José Mársico, de 74 anos, foi encontrado morto em sua casa no Centro de Taquaritinga na manhã do dia 10 de julho, por uma funcionária. O corpo apresentava sinais de violência, e os pés estavam amarrados com fios elétricos. O caso gerou grande comoção na cidade.
Vanderlei Mársico foi empresário do setor de comunicação, proprietário de emissoras como a Canal Um FM e a Cidade FM, e teve uma longa trajetória política, sendo vereador por três mandatos e prefeito por duas vezes. Em 2024, foi afastado do cargo por decisão judicial, sob investigação por fraudes em contratos públicos, o que gerou repercussão política e social no município.
A Polícia Civil segue com as investigações e promete novos desdobramentos nos próximos dias. A expectativa é que a quebra do silêncio por parte do menor ou novas provas obtidas auxiliem na identificação dos cúmplices e na elucidação completa do crime, que abalou a rotina e a história recente de Taquaritinga.



