domingo, 24 maio, 2026

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Crônica: Salvemos a inteligência natural. Vamos ensiná-los a pensar

Por: Sérgio Sant’Anna*

Hoje, no período vespertino, enquanto alguns de vocês leem esta minha crônica, construída à base de detalhes e um pouco de conhecimento, estarei com um grupo de amigos e colegas, tratando, numa livraria agradabilíssima, denominada “Coruja buraqueira”, de Laguna, cidade histórica aqui de Santa Catarina, num Clube de leitura, sobre a obra: “Paixão simples”, de Annie Ernaux, prêmio Nobel de Literatura. Uma obra carregada da primeira pessoa, envolvida por aquela paixão capaz de retirar-te do prumo. Interessante que me lembro destas paixões durante a adolescência, juventude. Era mesmo tipo Camões e “Monte Castelo” do Renato Russo: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer…”. Acredito piamente que o poeta português aqui, não soubesse ainda a diferença entre amor e paixão. Neste exato momento em que o poeta de “Os Lusíadas” escrevia, estava a declarar o fogo das suas paixões. E Renato sabia disso. Não era amor, o efeito era o da “passione”, que depois Laura Pausine e Renato Russo cantaram lindamente no CD de despedida do compositor brasiliense desta vida.

Este é um dos fundamentos dos quais alça ao pensar, quando procuramos a intertextualidade, a relação entre a teoria e sua aplicação no cotidiano, e procurarei escrever por aqui sua essencialidade. As escolas e colégios hoje, em função das inúmeras tarefas atribuídas ao professor, deixaram de estimular o pensar. Não provocam a reflexão perante nossos discentes. Estamos criando uma geração incapaz de pensar. Seres humanos incapazes de fixarem-se num determinado problema e tentar resolvê-lo. Incapazes de buscarem um argumento para sua exposição política ao proferir seu sim ou seu não. O Sistema escolar brasileiro é o pecador. Pode-se trocar o time, remover as peças, todavia o sistema de ensino implantando no Brasil há décadas é precário. E aqui não almejo falar da remuneração docente que é uma vergonha, porém hei de argumentar contra uma política educacional incapaz de estimular um estudante a debater, elaborar seus argumentos, ou mesmo convocá-lo a demonstrar suas posições. A onda do momento agora é surfar pelas IAs. Navegar pelo infomar da tecnologia. Escolas e colégios só tratando desses aspectos. O restante que exploda.

Além disso, convivemos com uma geração de pais incapacitada no trato de educar, que acabou terceirizando à educação dos seus filhos ao núcleo escolar. Irresponsabilidade. Não conseguiram educar seus filhos, agora cobram da escola uma função que não pertence a este núcleo. Aquela pedagogia do amor e do afeto, confundida com a pedagogia freireana, lançada por Gabriel Chalita e outros tantos educadores, quebrou a função do docente que era aquele que ensinava, que dedicava-se ao ato de pensar e levava o seu discente, como a própria origem do nome destaca, conduzia-o ao caminho do saber. Estava escrito que a aprovação automática era uma aberração, que a não-reprovação era um atentado contra os princípios educacionais e que aqueles senhores que ocupavam Ministérios e Secretarias de Educação blefavam. Faziam politicagem. Almejavam cargos públicos e destes nunca mais saírem.

Hoje convivemos com a primeira geração de filhos, cujo quociente de inteligência (QI) é menor que o de seus pais; a primeira vez em que no Brasil o número de não-leitores é maior que o número de leitores. Ademais, fracassamos em quesitos básicos perante o mundo: como efetuar operações simples quando se trata de Matemática, além de mais de 62.000.000 de analfabetos funcionais. Realmente o fracasso se destaca neste momento que entrará para a história. Uma geração cuja tecnologia é a ferramenta que substituíra ao cérebro. Fala-se muito em Inteligência Artificial, esquece-se da Inteligência Natural. A palavra falada ou escrita não é mais carregada pela semântica, tornou-se vazia. A palavra não é mais criticada, embasada em peritos argumentos. A palavra foi esquecida. A coisificação tomou conta do terreno linguístico. Os substantivos foram substituídos pelos pronomes indefinidos. Os adjetivos tornaram-se iguarias, na boca daquele que não consegue, minimamente, elaborar uma oração subordinada adjetiva. Fomos tragados pelo apatia em conhecer, pela gana do saber. Estamos atormentados por uma geração que almeja riqueza e poder e se esquece do conhecimento. Uma geração que a empatia é difundida constantemente pelas redes sociais, todavia não é praticada.

Pensemos mais um pouco, e comecemos a ensiná-los a pensar. Por favor!

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.