sábado, 27 junho, 2026

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Artigo: Compliance Zero – quando a bala perdida acerta todos os lados

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Brasília tem uma característica curiosa: escândalos costumam nascer com sobrenome partidário e morrer com CPF coletivo. No início, cada caso parece pertencer a um campo político específico. Pouco tempo depois, descobre-se que a geografia do poder é mais ampla do que os discursos eleitorais sugerem.

A nova fase da Operação Compliance Zero produziu mais um desses momentos de constrangimento transversal. O alvo mais ruidoso da vez foi o senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado e uma das figuras mais influentes do PT. De repente, o homem encarregado de organizar a base governista passou a ocupar o centro das manchetes e das conversas sussurradas nos corredores acarpetados do Planalto.

Segundo os investigadores, as suspeitas envolvem benefícios que incluiriam um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões em Salvador, utilização de aeronaves privadas, ingressos para shows nos Estados Unidos e repasses a empresas ligadas ao entorno familiar do parlamentar. A defesa nega irregularidades, mas, em Brasília, a simples abertura da cortina costuma ser suficiente para transformar qualquer roteiro em crise política.

O que mais chamou atenção, porém, não foi apenas o nome do senador. Foi o alcance da operação. Daniel Vorcaro, personagem central do enredo, parece ter conseguido uma façanha rara na política brasileira contemporânea: atingir governo, oposição, centro, direita, esquerda e qualquer segmento do establishment que estivesse ao alcance de sua influência. Num país dividido entre polos ideológicos que passam o dia se acusando mutuamente, a investigação produziu algo próximo de um consenso involuntário.

Nos bastidores do Planalto, o desconforto foi imediato. Auxiliares do presidente passaram a discutir se seria conveniente que Wagner deixasse a liderança do governo para concentrar esforços na própria defesa. Não se tratava apenas da repercussão pública. Havia também um sentimento de surpresa. Relatos vindos do entorno presidencial indicam que o senador teria assegurado mais de uma vez que não existiam elementos capazes de justificar uma operação desse porte.

Então vieram as imagens. E, em Brasília, imagens costumam ser mais devastadoras do que relatórios. Fotografias de dinheiro apreendido, detalhes sobre imóveis de alto padrão e a exposição pública de relações empresariais transformaram uma investigação técnica em um problema político de primeira grandeza.

Como acontece em quase todos os grandes escândalos nacionais, os partidos já começaram a fazer aquilo que sabem de melhor: calcular danos. Uns procuram explicar. Outros tentam relativizar. Há também os que aguardam a oportunidade de apontar o dedo, mesmo quando o histórico recomenda cautela.

O problema é que a população parece cada vez menos interessada nessa contabilidade partidária. O eleitor comum não pergunta se o investigado é de esquerda, de direita ou de centro. Pergunta outra coisa: o que aconteceu? Quem se beneficiou? Houve irregularidade? Haverá responsabilização?

No fim das contas, é essa a questão que permanece quando os holofotes se apagam. Não importa a patente política, o cargo ocupado ou a proximidade com o poder. O que a sociedade espera não é a defesa automática dos aliados nem a condenação automática dos adversários. O que espera é esclarecimento completo dos fatos e punição exemplar para quem eventualmente tenha cometido irregularidades.

Porque, diante de suspeitas dessa dimensão, a impunidade continua sendo o único partido que jamais perde uma eleição em Brasília.

Caiu Jacques Wagner. Demorou. Depois de atravessar crises, desgastes e controvérsias como quem ignora a previsão de tempestade sob um guarda-chuva furado, sua saída chega mais como confirmação do óbvio do que como novidade. O que impressiona não é a queda, mas o tempo que levou para acontecer…

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.