terça-feira, 21 abril, 2026

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Crônica: Redação ENEM – é no ato de pensar que o texto existe

Por: Sérgio Sant’Anna*

Na manhã abafada de um domingo de novembro, enquanto os portões ainda rangiam como metáfora de destinos em suspenso, pensei que a redação do ENEM de 2026 talvez não fosse apenas uma prova, mas um espelho — desses que, como já sugeria Michel Foucault, não refletem apenas o rosto, mas as estruturas invisíveis que nos atravessam. Os estudantes, com suas canetas pretas e olhares inquietos, carregavam não apenas repertórios, mas histórias inteiras comprimidas em folhas pautadas.

A cada edição, o exame parece dialogar com o tempo histórico, como se fosse um cronista silencioso. Desde temas que evocam desigualdades sociais até aqueles que tratam de tecnologia e cidadania, o ENEM constrói uma narrativa que poderia muito bem ser analisada à luz do materialismo histórico de Karl Marx, pois revela as tensões entre indivíduo e sociedade, entre estrutura e agência.

Imagino que, em 2026, o tema possa tangenciar a hiperconectividade e seus paradoxos — algo que Zygmunt Bauman chamaria de liquidez das relações. Afinal, vivemos tempos em que o excesso de informação não garante compreensão, e interpretar textos tornou-se quase um ato de resistência. Nesse cenário, escrever bem é mais do que habilidade: é posicionamento.

Enquanto isso, nas entrelinhas da prova, ecoam vozes da literatura. Talvez Machado de Assis sorrisse com ironia ao ver tantos jovens tentando organizar o caos em introduções, desenvolvimentos e conclusões. Ele, que tão bem compreendia as contradições humanas, veria no ENEM um grande exercício de autoconhecimento coletivo. Há também algo de artístico nesse momento. Como em uma tela de Tarsila do Amaral, o Brasil se revela múltiplo, colorido e, por vezes, desigual. Cada redação é um quadro: algumas impressionistas, outras realistas, mas todas tentando capturar a essência de um país em constante transformação. E não se pode esquecer da trilha sonora invisível que acompanha esses estudantes. Talvez, no silêncio das salas, ressoe algo de Chico Buarque, cuja obra sempre flertou com crítica social e sensibilidade poética. Escrever, nesse contexto, é quase como compor: exige ritmo, coerência e emoção.

Do ponto de vista filosófico, a redação do ENEM é um exercício de ética. Ao propor soluções para problemas sociais, o candidato é convocado a pensar como Immanuel Kant: agir de modo que sua proposta possa ser universalizável. Não basta argumentar; é preciso responsabilizar-se pelo que se escreve.

Historicamente, provas como essa também revelam o projeto de nação que se deseja construir. Desde a redemocratização do Brasil, avaliações educacionais passaram a ser instrumentos de inclusão, ainda que imperfeitos. Nesse sentido, o ENEM carrega algo da utopia pedagógica de Paulo Freire, para quem a educação deveria libertar, e não apenas avaliar.

No entanto, há também angústia. Como em um romance de Clarice Lispector, muitos estudantes enfrentam o vazio da folha em branco como quem encara o próprio abismo. Escrever torna-se, então, um ato existencial — uma tentativa de dar forma ao indizível.

E, ao final, quando o tempo se esgota e as folhas são recolhidas, resta a sensação de que algo maior aconteceu ali. Mais do que uma prova, a redação do ENEM de 2026 terá sido um retrato do Brasil contemporâneo: suas dores, suas esperanças e, sobretudo, sua capacidade de pensar — porque, como já insinuava René Descartes, é no ato de pensar que, de fato, existimos.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.