terça-feira, 12 maio, 2026

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Crônica: Acender ideias – o professor é luz para o mundo

Por: Sérgio Sant’Anna*

Nas antigas ágoras gregas, enquanto Sócrates caminhava entre os discípulos e fazia perguntas que desconcertavam a juventude ateniense, talvez já estivesse ali a semente daquilo que sustenta uma sociedade inteira: o professor. Não apenas o transmissor de conteúdos, mas aquele que inquieta, provoca e ensina o ser humano a pensar antes de agir. Em tempos modernos, cercados por telas luminosas e respostas instantâneas, ainda é a figura do docente quem ajuda o indivíduo a compreender que conhecimento não é velocidade, mas profundidade.

Durante a Idade Média, quando livros eram raros e o saber permanecia guardado em mosteiros, muitos professores anônimos mantiveram viva a chama da humanidade. Séculos depois, o movimento iluminista reforçaria essa importância ao defender a razão como caminho para a liberdade. Jean-Jacques Rousseau acreditava que a educação moldava o homem e a sociedade. Não era exagero: toda civilização que desprezou seus mestres acabou tropeçando na própria ignorância.

No Brasil, essa verdade ecoa desde as palavras de Paulo Freire, para quem “a educação não transforma o mundo; a educação muda as pessoas, e as pessoas transformam o mundo”. O professor é, portanto, o arquiteto invisível do futuro. Está na mão dele o médico que salvará vidas, o juiz que defenderá a justiça, o engenheiro que erguerá pontes e até o poeta que traduzirá as dores humanas em versos. Antes de qualquer profissão, houve um professor ensinando alguém a segurar um lápis e acreditar em si mesmo.

Os movimentos literários também compreenderam essa importância. O Humanismo colocou o homem no centro das reflexões; o Realismo denunciou desigualdades sociais; já o Modernismo brasileiro, com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, defendeu uma educação capaz de formar identidade nacional. Afinal, ensinar nunca foi apenas repetir fórmulas: é formar consciência crítica. Talvez por isso tantos regimes autoritários tenham perseguido professores ao longo da história. Quem ensina pensamento livre assusta aqueles que dependem da obediência cega.

Há algo profundamente simbólico numa sala de aula. Enquanto o mundo valoriza números, lucros e algoritmos, o professor ainda trabalha com algo invisível: esperança. Carlos Drummond de Andrade escreveu que “as escolas serão cada vez melhores na medida em que cada ser se comporte como colega, amigo e irmão”. Em meio ao barulho cotidiano, o docente continua tentando ensinar empatia a uma geração acostumada à pressa e ao individualismo.

A música popular brasileira também eternizou essa figura. Em “O Caderno”, Toquinho canta: “Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco até o bê-a-bá”. O trecho parece simples, mas revela uma verdade poderosa: ninguém atravessa a vida sozinho. Existe sempre uma voz paciente conduzindo os primeiros passos, corrigindo erros e incentivando recomeços. O professor é essa presença silenciosa que acompanha trajetórias sem exigir aplausos.

Em períodos históricos de crise, guerras ou desigualdades, é a educação que impede a ruína completa das sociedades. Após a Segunda Guerra Mundial, muitos países reconstruíram suas nações investindo primeiro em escolas e universidades. Compreenderam que prédios podem ser erguidos rapidamente, mas consciência humana leva gerações para ser construída. E toda construção humana começa pela palavra ensinada dentro de uma sala de aula.

Talvez o professor nunca apareça nas manchetes com a frequência dos grandes empresários ou políticos. Ainda assim, permanece sendo a profissão que sustenta todas as outras. Porque o futuro não nasce pronto: ele se senta diariamente diante de um quadro, carrega dúvidas nos olhos e espera que alguém lhe ensine a interpretar o mundo. E enquanto existir um professor disposto a acender ideias, ainda haverá esperança para a humanidade.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.