sexta-feira, 1 maio, 2026

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Crônica: Os Fantasmas do Copan

Por: Gustavo Antonio Ascencio*

Casei-me com Bruna e fomos passear em São Paulo. Ela queria assistir a um musical e comprar discos; eu, rever amigos e comprar livros. Estamos no Edifício Copan, um prédio ondular antes imaginado por Oscar Niemeyer; de onde inclusive escrevo esta crônica. Dizem que é assombrado. De acordo com alguns moradores, pela madrugada pode-se ouvir “psius” e sussurros por suas escadas, aparentemente uma entidade vaga perdida pelo sétimo andar. Há ainda o espírito de um cafetão por aí, (o prédio na década de 70 teve lá sua contribuição no submundo paulistano); além de uma presença estranha na casa de máquinas. De mesmo modo, falam de um certo odor de enxofre, e de fato sentimos algo mesmo. Bruna acredita ser apenas cigarros, aparentemente nossos vícios nos acompanham até o pós-vida.

Tenho me dado bem com os meus vizinhos. Eles não me incomodam, eu não os incomodo. Minha vó (ou minha mãe) certa vez me disse que devemos temer os vivos, não os mortos, o conselho me faz bastante sentido. Assim, tento ser gentil: seguro o elevador mais alguns segundos para caso alguém queira descer; peço licença para ninguém em específico ao entrar ou sair; deixo ao menos uma luz acesa para o caso do véu que nos separa estar mais para uma cortina blackout. Bruna, por isso, pode me achar louco e talvez o seja, porém não por tais comportamentos; através de uma contradição, afinal somos todos dotados dela, firo uma verossimilhança interna de mim mesmo: não acredito em nada disso, o ceticismo já eliminou há muito qualquer nuance esotérico de minha vida, o que é uma pena. Acreditar no tangível é chato e com certeza não daria uma boa crônica.

Toda manhã pelos últimos dias, antes dos passeios, desço ali no Café Floresta e tomo um café puro com pão de queijo. Vejo nos olhares dos funcionários do edifício que já habito um lugar particular em suas memórias de curto prazo. Me reconhecem momentaneamente e me tratam com um intimismo artificial, como o calor de uma aquecedora portátil. Depois do check-out me esquecerão.

Quando então também serei um fantasma do Copan.

*Gustavo Antonio Ascencio é escritor e professor formado em letras na USP.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.