sexta-feira, 17 abril, 2026

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Crônica: A casa onde o silêncio aprendeu a ficar

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há casas que guardam memórias. Camuflam o passado. Adormecem a nostalgia. Agigantam-se e, ao mesmo tempo, controlam a saudade; outras guardam ausências. A casa de Dona Suécia parecia ter aprendido a respirar devagar depois da tragédia que levou seu filho e seus netos numa única tarde de inverno. As paredes ainda sustentavam retratos, brinquedos esquecidos e o eco de risadas que já não voltariam. Diante daquele silêncio pesado, recordei as palavras de Albert Camus: a vida, por vezes, se revela absurdamente injusta, e o ser humano precisa encontrar sentido mesmo quando o mundo parece não oferecer nenhum.

Sentada junto à janela, ela me disse que o tempo não cura tudo; apenas ensina o coração a suportar o que não pode ser mudado. Lembrei-me então de Sigmund Freud e de sua reflexão em “Luto e Melancolia”, na qual explica que o luto é um trabalho da alma, um processo lento em que a dor precisa ser atravessada para que a vida encontre algum tipo de continuidade. Contudo, havia algo naquele olhar que parecia ainda caminhar pelas ruínas do acontecimento.

Nos momentos de silêncio, Dona Suécia me contou que releu muitas vezes “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Disse que a aridez daquelas páginas lhe parecia semelhante ao deserto que agora existia dentro dela. Como Fabiano e Sinhá Vitória, ela também caminhava por uma paisagem onde as palavras faltavam e apenas a resistência silenciosa parecia possível.

Pensei então nas reflexões de Arthur Schopenhauer, para quem o sofrimento é uma das marcas inevitáveis da existência humana. Entretanto, diante daquela mulher, percebi algo que talvez o próprio filósofo não tivesse previsto completamente: mesmo esmagada pela dor, ela continuava regando as plantas do quintal, preparando café e abrindo a janela todas as manhãs, como se insistisse em lembrar ao mundo que ainda havia vida.

Em certa tarde chuvosa, ela mencionou que encontrou consolo inesperado nas páginas de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. Disse que, assim como Macabéa, às vezes a existência parece pequena diante da brutalidade do destino, mas ainda assim há uma centelha de humanidade que resiste. Talvez seja essa centelha que impede o coração de desistir completamente.

Ao sair daquela casa, compreendi algo que nenhum tratado filosófico explica plenamente: existem dores que não se resolvem, apenas se tornam companheiras silenciosas da vida. Ainda assim, a dignidade de continuar vivendo, mesmo depois da tragédia, lembra aquilo que Viktor Frankl escreveu em “Em Busca de Sentido”: quando já não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos. E talvez seja exatamente isso que Dona Suécia faça todos os dias — aprender, com infinita coragem, a viver no território da saudade.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.