Um erro que não pode ser comemorado em defesa da economia e da praticidade
Por: Gabriel Bagliotti*
Sou absolutamente contrário à pavimentação dos canteiros centrais de ruas e avenidas. E não digo isso por romantismo ambiental ou por apego estético ao verde urbano, mas por entender que essa prática representa mais um passo no caminho errado que muitas cidades, inclusive a nossa, insistiriam em seguir quando o assunto é planejamento urbano e meio ambiente.
Recentemente vi manifestações defendendo esse tipo de intervenção sob o argumento da economia, da praticidade e da facilidade de manutenção, apenas pelo mata estar alto neste começo de ano. Confesso que fiquei pensando o que leva alguém a ser favorável a uma ação tão agressiva ao meio ambiente. Se já convivemos diariamente com quilômetros de asfalto, concreto nas calçadas e construções que impermeabilizam quase todo o solo urbano, por que insistir em eliminar justamente os poucos espaços que ainda permitem que a cidade respire?
Os canteiros centrais não são meros elementos decorativos. Eles cumprem funções ambientais essenciais. Quando se cobre o solo com cimento, impede-se a absorção da água da chuva, aumentando o escoamento superficial e contribuindo diretamente para alagamentos e enchentes.
Há também um ponto que considero ainda mais grave. O dano às árvores. Cobrir o entorno de troncos e raízes com concreto não é apenas irresponsável, é crime ambiental. Árvores precisam respirar, absorver água e nutrientes. Quando isso lhes é negado, o resultado é o apodrecimento das raízes, o enfraquecimento da planta e, em muitos casos, a morte lenta da árvore. Depois, surge o discurso de que a árvore caiu, estava doente ou representava risco. O risco, na verdade, foi criado pelo próprio homem.
Outro efeito direto da concretagem é o aumento da chamada ilha de calor. Áreas cimentadas absorvem e irradiam calor, elevando a temperatura local. Já as áreas verdes fazem exatamente o contrário. Amenizam o clima, oferecem sombra e melhoram a qualidade de vida. Em tempos de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, eliminar espaços verdes urbanos beira a irresponsabilidade.
Não menos importante é a perda da biodiversidade. Mesmo pequenos canteiros servem de abrigo para insetos, aves e outros animais que fazem parte do equilíbrio ambiental. Ao substituir a terra e a vegetação por concreto, eliminamos esses micro ecossistemas e empobrecemos ainda mais o ambiente urbano.
Sei que gestores públicos costumam alegar vantagens como menor custo de manutenção, facilidade de limpeza e até uma suposta melhora estética, como alguns que por aqui passaram. Mas a que preço? Economiza-se hoje para pagar muito mais amanhã, seja com obras de drenagem, seja com saúde pública, seja com a perda irreversível de qualidade ambiental.
Existem alternativas. Recentemente o prefeito de Ribeirão Preto, Ricardo Silva, divulgou um vídeo criticando os pastos nas avenidas da vizinha cidade, mas ao invés de seguir o caminho da impermeabilização do solo, seguiu por um novo caminho, mas vivo e muito mais bonito. Trata-se do paisagismo, neste caso, com plantas nativas de baixa manutenção, uso de seixos que permitem drenagem, pavimentos intertravados permeáveis, projetos de infraestrutura verde. Tudo isso já é realidade em cidades que pensam o futuro com responsabilidade. Não se trata de abandonar a cidade ao mato, mas de planejar com inteligência e respeito ao meio ambiente.
Concretar canteiros centrais é optar pelo caminho mais fácil e mais curto, ignorando os impactos de longo prazo. Eu prefiro acreditar que ainda podemos escolher melhor. Preservar o pouco de natureza que nos resta nas cidades não é luxo. É necessidade. É visão de futuro.



