Por: Lucas Fanelli*
Olá caro leitor, espero que você esteja bem! Hoje quero completar as três publicações de Carla Madeiro e falar sobre A Natureza da Mordida.
Se você acha que literatura brasileira contemporânea é só sofrimento, prepare-se: Carla Madeira resolveu provar que dor pode ser gourmetizada. A Natureza da Mordida não é apenas um livro, é um ringue emocional que você ganha tapas existenciais.
A autora, já conhecida por Tudo é Rio e que eu já falei anteriormente, volta com sua prosa poética para nos lembrar que a vida é uma senhora banguela que ri da nossa cara. O romance mergulha em tragédias familiares, culpas e demências, mas não se engane: aqui não há espaço para o “final feliz”. O máximo que você vai encontrar é um “final menos trágico que o esperado”.
O enredo traz Olívia, uma jornalista que chora em sebos (porque chorar em casa já não tem mais graça), e Biá, uma psicanalista aposentada que decide expulsar Olívia da sua cadeira favorita pois só ali se sente plenamente confortável. A amizade improvável entre as duas é tão improvável que chega a ser crível. Afinal, quem nunca fez amizade com uma senhora que te confundiu com um fantasma do passado?
Mas não se preocupe, se você acha que vai escapar ileso, Carla Madeira garante que não. O livro é uma mordida quase literal. Cada página é um dente cravado na sua alma, e quando você pensa que já sofreu o suficiente, vem mais uma abocanhada. Aqui quero deixar o dom da Carla Madeiro de escolher os nomes de seus livros e os momentos certo se apresentar o motivo do nome.
O acidente fatal envolvendo uma criança, que desencadeia toda a trama, é o tipo de evento que faria até novela das nove pedir arrego. Marlene, Dalva e Abílio são personagens tão atormentados que fariam Freud reservar mais horários semanais em sua agenda para dar conta da demanda. Culpa, vingança e redenção, praticamente um cardápio degustação de emoções humanas.
E aí está a ironia, pois Carla Madeira escreve sobre dor com tanta beleza que você quase se sente culpado por estar achando bonito. É como admirar um incêndio porque as chamas estão fotogênicas. Carla Madeiro sabe falar sobre as tragédias do dia a dia de forma bela e que te faz refletir que a dor pode ser sutil.
No fim, A Natureza da Mordida é um lembrete cruel e engraçado de que a vida não só morde, como mastiga e engole e cabe a nós, leitores, agradecemos, porque nunca foi tão prazeroso ser triturado pela literatura.
Carla Madeira nos mostra que até a mordida da vida pode virar literatura e, no fundo, somos todos aperitivos.



