Com carga mental elevada, jornadas múltiplas e desigualdade de reconhecimento, as mulheres figuram no topo das estatísticas da Síndrome de Burnout no Brasil de 2025. Os dados revelam uma crise de saúde mental que ultrapassa o ambiente profissional
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente, em 2022, a Síndrome de Burnout como um fenômeno relacionado ao estresse crônico no trabalho. Desde então, países como o Brasil têm observado um crescimento preocupante nos casos, especialmente entre mulheres. Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) mostram que, em 2024, 73% dos diagnósticos clínicos de Burnout registrados no país ocorreram em mulheres, a maioria entre 30 e 49 anos.
O fenômeno, embora associado inicialmente a ambientes corporativos altamente competitivos, tornou-se transversal a diversas profissões exercidas majoritariamente por mulheres, como professoras, enfermeiras, assistentes sociais e cuidadoras. Ao mesmo tempo, a sobrecarga emocional no cuidado com os filhos, familiares idosos e na gestão do lar, ainda vista como responsabilidade feminina, intensifica os fatores que desencadeiam a exaustão física e emocional.
Carga mental e jornada invisível
O termo “carga mental” vem ganhando destaque nos últimos anos para descrever a responsabilidade psicológica que recai majoritariamente sobre as mulheres. Trata-se do esforço contínuo de planejar, lembrar, organizar e antecipar demandas domésticas, escolares e familiares, mesmo quando estas não são executadas diretamente por elas. Embora muitas mulheres ocupem posições profissionais formais, continuam sendo, em grande medida, as principais responsáveis pela esfera doméstica.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD/IBGE, 2023), as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,4 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11 horas dos homens. Isso significa que, mesmo após a jornada profissional, elas enfrentam um segundo turno de trabalho, geralmente não remunerado, que contribui para o desgaste emocional e psicológico acumulado.
Esse cenário, muitas vezes naturalizado, é uma das principais causas da cronificação do Burnout em mulheres. Os sintomas mais comuns incluem cansaço extremo, sensação de fracasso, dificuldade de concentração, irritabilidade, distúrbios do sono, crises de ansiedade e depressão — sintomas que frequentemente são confundidos com “estresse normal” e negligenciados até se tornarem incapacitantes.
Profissões femininas no epicentro da crise
A análise das categorias profissionais mais afetadas revela a magnitude do problema. Segundo relatório de 2024 do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), as professoras lideraram os afastamentos por transtornos psíquicos relacionados ao trabalho, seguidas por profissionais da saúde e do serviço social, todas majoritariamente exercidas por mulheres.
Na área da enfermagem, por exemplo, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) apontou que 64% das profissionais entrevistadas relataram sintomas compatíveis com Burnout no último ano, agravados pelo estigma da força e da abnegação, que ainda recai sobre as mulheres nesses campos. Já no setor corporativo, o índice de rotatividade feminina por esgotamento subiu 18% entre 2022 e 2024, com destaque para médias e grandes empresas com culturas organizacionais baseadas em metas inalcançáveis e hiperconectividade digital.
Saúde mental e desigualdade de acesso
Apesar da alta incidência, o acesso ao tratamento psicológico e psiquiátrico ainda é restrito a uma minoria. De acordo com o Ministério da Saúde, menos de 12% das mulheres com sintomas de Burnout buscaram atendimento especializado no SUS em 2024, em razão de filas de espera, falta de informação, estigma e sobrecarga cotidiana que impede o autocuidado.
Além disso, o tratamento da síndrome não é padronizado na rede pública, e muitas vezes as mulheres são encaminhadas apenas para uso de medicamentos sem acompanhamento terapêutico, o que limita as possibilidades de recuperação plena.
A ausência de protocolos nacionais específicos e a escassez de políticas públicas voltadas à saúde mental da mulher trabalhadora demonstram uma lacuna estrutural ainda não enfrentada com a seriedade necessária. Iniciativas de empresas que oferecem planos de saúde com apoio psicológico ou programas internos de bem-estar ainda são realidade para uma minoria privilegiada do mercado formal.
A epidemia de Burnout entre mulheres no Brasil de 2025 não é apenas um reflexo do excesso de trabalho, mas um sintoma de uma sociedade que sobrecarrega, silencia e invisibiliza as múltiplas jornadas femininas. A romantização da resiliência, a cobrança de excelência e a falta de reconhecimento se combinam para criar um ambiente tóxico e estruturalmente hostil à saúde mental das mulheres.
Enfrentar essa realidade exige ações integradas entre poder público, empresas e sociedade civil, com investimento em saúde mental, revisão das políticas laborais, ampliação da rede de apoio e valorização do tempo feminino. Somente assim será possível transformar a exaustão crônica em bem-estar sustentável — e garantir que cuidar de si deixe de ser um luxo e passe a ser um direito.



