quarta-feira, 10 junho, 2026

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Artigo: Proteína – Quando o cuidado com a saúde vira exagero?

Por: Arthur Micheloni

Se existe um nutriente que ganhou protagonismo nos últimos anos, esse nutriente é a proteína. O que antes era assunto restrito às academias passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas preocupadas com emagrecimento, composição corporal, longevidade e saúde. Basta uma rápida visita ao supermercado para perceber esse movimento. Produtos enriquecidos com proteína ocupam cada vez mais espaço nas prateleiras e nas estratégias de marketing das indústrias alimentícias.

E isso não acontece por acaso. A proteína exerce funções fundamentais no organismo e tem papel importante na manutenção da massa muscular, especialmente durante o envelhecimento. O aumento desse interesse reflete uma mudança positiva na forma como passamos a enxergar a alimentação e a prevenção de doenças.

Não há dúvidas de que esse nutriente é fundamental para a saúde. A proteína participa da formação e manutenção dos músculos, auxilia na produção de hormônios, enzimas e anticorpos, além de contribuir para uma maior sensação de saciedade. Em um mundo onde as pessoas vivem cada vez mais, preservar a massa muscular deixou de ser apenas uma questão estética e passou a ser um importante fator de qualidade de vida e independência funcional.

A ciência tem mostrado que músculos fortes estão associados a menor risco de quedas, melhor mobilidade, maior autonomia e melhores desfechos de saúde durante o envelhecimento. Por isso, profissionais da área têm incentivado uma ingestão adequada de proteína, especialmente entre idosos e pessoas fisicamente ativas.

Esse novo olhar trouxe mudanças importantes. O café da manhã, por exemplo, passou a receber mais atenção. Refeições que antes eram compostas basicamente por café, pão e manteiga começaram a incluir ovos, queijos, iogurtes e outras fontes proteicas. Além disso, estudos sugerem que distribuir a proteína ao longo do dia pode favorecer a síntese muscular, embora a quantidade total consumida diariamente continue sendo o principal fator para manutenção da massa magra.

Mas como acontece com muitas tendências ligadas à saúde, existe o risco de transformar uma boa recomendação em exagero. *Nas redes sociais, não é difícil encontrar pessoas tentando consumir quantidades cada vez maiores de proteína, acreditando que isso resultará automaticamente em mais músculos, mais saúde ou mais emagrecimento.*

Na prática, o organismo possui limites. A proteína é essencial, mas isso não significa que quanto mais melhor. O excesso não será convertido magicamente em massa muscular. Quando consumida além das necessidades do organismo, parte da proteína pode ser utilizada como fonte de energia, contribuindo para o aumento da ingestão calórica total.

Outro aspecto que merece atenção é a individualidade. Não existe uma quantidade única de proteína ideal para todos. Idade, peso corporal, rotina de exercícios, objetivos e condições de saúde influenciam diretamente essa necessidade. O que funciona para um atleta pode não ser adequado para uma pessoa sedentária, assim como as necessidades de um jovem são diferentes das de um idoso.

Também é importante lembrar que uma alimentação saudável não depende apenas da proteína. Quando toda a atenção se volta para um único nutriente, frutas, verduras, legumes, cereais integrais e outras fontes de fibras podem acabar perdendo espaço no prato. Esse desequilíbrio pode comprometer a qualidade global da alimentação e reduzir a variedade de nutrientes importantes para o organismo.

Outra questão frequentemente discutida é a saúde dos rins. As evidências científicas atuais indicam que dietas com maior teor de proteína não parecem causar danos renais em indivíduos saudáveis. No entanto, pessoas que já apresentam doença renal ou condições que afetam a função dos rins devem receber orientação profissional para adequar o consumo às suas necessidades.

A valorização da proteína trouxe benefícios importantes, principalmente por corrigir uma realidade comum: muitas pessoas realmente consumiam menos proteína do que precisavam. No entanto, o próximo passo é compreender que saúde não depende de excessos, mas de equilíbrio.

Nenhum nutriente é capaz de sustentar sozinho uma alimentação saudável. A proteína tem seu papel, mas divide espaço com carboidratos de qualidade, gorduras saudáveis, fibras, vitaminas, minerais e hábitos de vida adequados. A verdadeira nutrição não está nos extremos, mas na construção diária de escolhas equilibradas que possam ser mantidas ao longo da vida.

* Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. drarthur@clinicamicheloni.com

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.