quinta-feira, 23 abril, 2026

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Artigo: O rapper, o prefeito e a lição de Taquaritinga

Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**

Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, resolveu traçar uma linha no asfalto. Disse que a cidade não vai autorizar shows em espaços públicos de artistas que façam apologia ao nazismo. Não precisou citar nomes — todos sabiam o endereço do recado: Kanye West, o homem que já se autodenominou gênio, já tentou ser mártir, e hoje é, sobretudo, um ruído insistente com megafone próprio.

Kanye, que um dia declarou amor a Hitler e lançou um single chamado Heil Hitler — logo varrido das plataformas digitais —, coleciona cancelamentos como quem junta relíquias. Perdeu contratos bilionários, prêmios, fãs e o direito de entrar na Austrália. Mas segue em turnê, transformando o ego em espetáculo itinerante.

Em São Paulo, o show estava marcado para 29 de novembro, em Interlagos. Quando o evento foi cancelado pela primeira vez, a justificativa oficial foi “motivos logísticos”. Faltaria som? Luz? Ou apenas coragem para chamar as coisas pelo nome? Agora, num gesto que mistura cálculo e moralismo tardio, a prefeitura resolveu dizer o que sempre esteve nas entrelinhas: há limites.

É um gesto pequeno, mas simbólico. São Paulo é uma cidade onde cabe tudo — inclusive a percepção de que nem tudo deve caber.

E talvez essa lição precise atravessar o mapa e desemboca, de modo improvável, em Taquaritinga. Com sua alma provinciana, suas rivalidades de calçada e seu conservadorismo de missa das seis, a cidade também tem o que aprender com esse gesto

Independente de partido, crença ou devoção, é preciso compreender que o futuro só se constrói onde há respeito à diferença.

A cidade que um dia acolheu Plínio Salgado — o homem que sonhou um fascismo de sotaque brasileiro — precisa agora se reconciliar com o que negou: o direito de cada um ser quem é.

Respeitar a diversidade. Reconhecer o outro. Defender o direito de existir.

Porque, no fim, essa talvez seja a forma mais urgente de civilização.

*Gustavo Girotto é jornalista.

**Raphael Anselmo é economista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.