quarta-feira, 14 outubro, 2026
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Crônica: Por que escrevo tanto sobre professores?

Porque também sou feito deles!

Por: Sérgio Sant’Anna*

Outro dia, fizeram-me uma pergunta que, embora parecesse simples, permaneceu comigo por muito mais tempo do que eu imaginava: “Sérgio, por que você escreve tanto sobre professores?” Confesso que, a princípio, tive vontade de responder com a naturalidade de quem explica algo evidente. Depois, porém, percebi que aquela pergunta merecia mais do que uma resposta apressada. Merecia uma reflexão, talvez uma crônica, porque há perguntas que não nos pedem explicações: pedem que revisitemos a nossa própria história.

Escrevo sobre professores porque, antes de me tornar um deles, fui cercado por eles. Venho de uma família na qual a docência nunca foi apenas uma profissão, mas uma espécie de herança afetiva, um modo de enxergar o mundo e de compreender as pessoas. Cresci entre conversas sobre escolas, alunos, livros, provas, dificuldades e pequenas conquistas que, para quem nunca pisou verdadeiramente em uma sala de aula, talvez pareçam insignificantes. Eu, entretanto, aprendi cedo que a educação é feita justamente dessas pequenas coisas que, somadas, podem transformar uma existência inteira.

Fui aluno nesse universo e, posteriormente, professor. Mais do que isso: fui professor dos meus irmãos, dos meus primos e das minhas primas. Vivi a experiência de ensinar pessoas com as quais compartilhava sobrenomes, histórias familiares, afetos e lembranças. Não era apenas a responsabilidade de explicar conteúdos ou corrigir exercícios; era também a necessidade de compreender individualidades, respeitar dificuldades e descobrir maneiras de fazer o conhecimento chegar a cada um. Em determinados momentos, precisei assumir a voz do professor; em outros, bastou-me recordar o aluno que eu mesmo havia sido. Talvez seja justamente por ter conhecido os dois lados dessa relação que nunca consegui tratar a docência como uma atividade qualquer.

Quando me perguntam por que escrevo tanto sobre professores, penso que a pergunta talvez devesse ser outra: como eu poderia escrever sobre tantas coisas e ignorar justamente aquela que atravessa a minha vida? Escrevo sobre educação porque ela me constitui. Escrevo porque conheço a alegria de perceber que um estudante finalmente compreendeu aquilo que parecia impossível. Escrevo porque sei o que significa preparar uma aula depois de um dia cansativo, corrigir redações quando os olhos já pedem descanso e continuar pensando em um aluno mesmo depois de fechar o diário de classe. Escrevo porque, para mim, o magistério nunca terminou simplesmente quando o sinal tocou.

Também escrevo porque me inquieta a contradição de uma sociedade que diz acreditar na educação, mas nem sempre demonstra respeito por quem a realiza. Ouço discursos inflamados sobre o futuro do país, vejo políticos repetirem que a educação é prioridade e leio declarações sobre a importância do conhecimento. Entretanto, observo que o professor continua sendo, muitas vezes, responsabilizado por problemas que ultrapassam os limites da escola, cobrado por resultados que dependem de inúmeras condições e pouco reconhecido pelo trabalho intelectual, emocional e social que desempenha. Há uma distância desconfortável entre a homenagem feita no discurso e o respeito demonstrado na prática. Não escrevo porque me considero dono da verdade; escrevo porque me recuso a considerar essa contradição normal.

Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, ensinou-me a pensar a docência como uma prática que exige rigor, responsabilidade, respeito e consciência crítica. Ao dialogar com suas ideias, compreendo que ensinar não significa simplesmente transferir informações, mas criar possibilidades para a construção do conhecimento. Também encontro em Rubem Alves, especialmente em A alegria de ensinar, uma defesa sensível da curiosidade, do encantamento e da capacidade de despertar no outro o desejo de aprender. Quando leio esses educadores, reconheço algo que procuro preservar em minha própria trajetória: a convicção de que a escola precisa ensinar conteúdos, evidentemente, mas não pode perder a capacidade de formar pessoas. E formar pessoas exige um professor respeitado, ouvido e amparado.

As minhas reflexões também encontram companhia em Darcy Ribeiro, cuja defesa da educação pública me ajuda a compreender que os problemas educacionais brasileiros não podem ser separados das desigualdades históricas do país. Em A importância do ato de ler, Paulo Freire recorda-me que a leitura da palavra se relaciona com a leitura do mundo. É impossível, portanto, ensinar língua portuguesa e redação sem reconhecer que cada texto traz consigo experiências, conflitos, silêncios e possibilidades de interpretação da realidade. Como professor de Redação, sei que ensinar alguém a escrever não é apenas apresentar uma estrutura dissertativo-argumentativa, explicar competências ou enumerar conectivos. É ajudar esse alguém a organizar o pensamento, sustentar argumentos e conquistar uma voz própria. E como poderia fazer isso sem acreditar profundamente na importância de quem ensina?

Talvez seja por isso que determinadas canções me acompanhem quando penso na profissão. Em O Caderno, Toquinho canta a presença que acompanha diferentes etapas da vida, e encontro nessa imagem uma lembrança da escola como espaço de formação e memória. Em Another Brick in the Wall, do Pink Floyd, reconheço uma crítica contundente aos modelos escolares autoritários que reduzem estudantes a peças de uma engrenagem. Já Estudo Errado, de Gabriel, o Pensador, provoca uma reflexão sobre uma educação que pode se tornar mecânica quando privilegia a repetição em detrimento da compreensão. Essas músicas, tão diferentes entre si, lembram-me de que a educação também precisa ser discutida, questionada e reinventada. Não desejo uma escola que silencie seus estudantes, tampouco uma sociedade que silencie seus professores.

Na literatura, encontro outros espelhos dessa inquietação. Em O Ateneu, de Raul Pompeia, vejo uma representação crítica das relações de poder e das contradições presentes no ambiente escolar. Em Conto de Escola, Machado de Assis transforma uma experiência aparentemente cotidiana em uma reflexão sobre disciplina, interesse, moralidade e comportamento humano. E, quando penso na literatura infantil, lembro-me de Monteiro Lobato e da capacidade de suas personagens de transformar o conhecimento em aventura, diálogo e descoberta. São obras de épocas e perspectivas diferentes, mas que me ajudam a perceber como a escola ultrapassa os muros do prédio: ela é também um território de conflitos, expectativas, relações humanas e disputas sobre o tipo de sociedade que desejamos construir.

O cinema também me ensinou a olhar para a docência com mais profundidade. Em Sociedade dos Poetas Mortos, encontro no professor John Keating a provocação necessária para que os estudantes descubram a própria voz e aprendam a pensar por si mesmos. Em Escritores da Liberdade, inspirado na experiência da professora Erin Gruwell, observo como a escrita pode abrir caminhos para jovens cujas histórias foram atravessadas pela violência, pela exclusão e pela falta de perspectivas. Já Como Estrelas na Terra leva-me a refletir sobre a importância de reconhecer as singularidades dos estudantes e de não confundir dificuldades de aprendizagem com ausência de capacidade. Não considero esses filmes retratos completos da realidade escolar, pois o cotidiano docente é muito mais complexo do que qualquer roteiro. Ainda assim, eles me recordam algo essencial: um professor pode mudar a maneira como um estudante enxerga a si mesmo.

E, no entanto, preciso reconhecer que não podemos depositar sobre o professor a obrigação de salvar o mundo. Essa ideia, embora pareça elogiosa, pode esconder outra forma de injustiça: exigir heroísmo permanente de quem precisa de condições dignas para trabalhar. Pesquisadores como António Nóvoa defendem a importância da formação, da profissionalidade e do reconhecimento dos docentes; Maurice Tardif ajuda-me a compreender que os saberes do professor são construídos ao longo de uma trajetória que reúne formação, experiência e prática cotidiana. Essas contribuições reforçam uma convicção minha: valorizar o professor significa reconhecer que ensinar exige conhecimento especializado, estudo contínuo, planejamento e responsabilidade. Não basta aplaudi-lo em uma data comemorativa. É preciso oferecer remuneração justa, condições adequadas de trabalho, formação continuada, autonomia pedagógica e respeito à sua autoridade profissional.

Foi então que compreendi melhor a resposta àquela pergunta. Se a sociedade não valoriza suficientemente o professor, se os sistemas educacionais nem sempre reconhecem a complexidade da docência e se os discursos políticos frequentemente se distanciam da realidade das escolas, nós, professores, precisamos começar por não abandonar o reconhecimento de nós mesmos. Isso não significa alimentar vaidades, imaginar que somos superiores ou rejeitar críticas legítimas. Significa compreender o valor do trabalho que realizamos e não aceitar que a desvalorização se transforme em nossa identidade. Precisamos defender a profissão, compartilhar experiências, estudar, escrever, participar das discussões públicas e construir redes de solidariedade entre colegas. Precisamos, sobretudo, deixar de tratar o próprio cansaço como prova obrigatória de competência e o sacrifício permanente como condição natural do magistério.

Por isso, quando alguém me perguntar novamente por que escrevo tanto sobre professores, talvez eu responda que escrevo porque fui aluno, porque pertenço a uma família de docentes, porque ensinei meus irmãos e meus primos, porque continuo aprendendo com meus estudantes e porque, depois de tantos anos, ainda acredito no poder transformador da educação.      

Escrevo porque conheço as dificuldades da profissão, mas também porque não quero que elas apaguem sua beleza. Escrevo como professor de Língua Portuguesa e Redação, como alguém que acredita nas palavras e sabe que elas podem denunciar injustiças, preservar memórias e abrir caminhos para mudanças. Meu nome é Sérgio Sant’Anna, e não escrevo sobre professores apenas porque sou um deles. Escrevo porque, de alguma maneira, eles também estão em mim.

Talvez a resposta definitiva seja esta: escrevo sobre professores porque não quero que o silêncio seja a última palavra sobre a nossa profissão.Enquanto houver um educador preparando uma aula, corrigindo um texto, acolhendo uma dificuldade ou ajudando um estudante a descobrir sua capacidade, haverá uma história que merece ser contada. E, se tantas vezes nos pedem que ensinemos os outros a pensar, talvez tenha chegado a hora de pensarmos também sobre nós mesmos. Afinal, quem ensinará à sociedade o valor de um professor se nós próprios desistirmos de defendê-lo? E quem nos devolverá o reconhecimento que perdemos se não começarmos por compreender que a dignidade docente não é um favor concedido por ninguém: é um direito que precisa ser respeitado.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.