sábado, 10 outubro, 2026
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Crônica: O professor que todo mundo respeita

Desde que não seja preciso valorizá-lo

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há uma frase que, de tanto ser repetida, quase perdeu o sentido: “O professor é a base de tudo”. Escuto isso há quase três décadas, desde que comecei a caminhar pelos corredores das escolas com livros debaixo do braço, provas para corrigir e uma esperança teimosa de que ensinar ainda pudesse mudar alguma coisa. O curioso é que todos concordam com a importância do professor — até chegar a hora de pagar por essa importância. Aí, subitamente, a educação deixa de ser prioridade e vira despesa.

Eu me lembro de quando comecei no magistério. Havia dificuldades, evidentemente, porque professor nunca teve vida fácil neste país. Mas havia, talvez, uma espécie de reverência pela profissão. O professor era aquele sujeito que sabia alguma coisa que os outros ainda não sabiam. Hoje, entretanto, vivemos a era do Google, da inteligência artificial, do vídeo de quinze segundos e do “eu vi na internet”. O estudante descobre uma informação em segundos e, às vezes, imagina que isso o transforma em especialista. E eu continuo ali, tentando explicar que informação não é conhecimento, assim como opinião não é argumento e algoritmo não é pensamento.

Paulo Freire dizia que “ensinar não é transferir conhecimento”, mas criar possibilidades para a sua construção. E talvez esteja aí uma das grandes tragédias do nosso tempo: confundimos ensinar com fornecer respostas. O professor, entretanto, não é um balcão de informações. Ele provoca, questiona, desconstrói, reorganiza, insiste. Eu passo uma aula inteira tentando ensinar um aluno a interpretar um texto e, no final, alguém pergunta por que não entrego logo a resposta. Às vezes, tenho vontade de responder: porque, se eu entregar todas as respostas, quem ensinará você a fazer as perguntas?

O problema é que a desvalorização do professor não vem apenas dos governos. Ela também aparece dentro da própria sociedade. Há pais que enxergam o professor como um funcionário particular da família, alunos que confundem autoridade pedagógica com autoritarismo e políticos que descobrem a importância da educação justamente quando precisam discursar diante de uma câmera. Na campanha eleitoral, quase todo mundo ama a educação. Depois da eleição, o professor descobre que o amor era platônico.

E os números têm uma sinceridade que os discursos oficiais nem sempre possuem. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, com base em dados da Pnad Contínua/IBGE, a remuneração média dos profissionais do magistério alcançou R$ 5.597,84 em 2025, contra R$ 6.566,54 dos demais profissionais considerados na comparação. Isso significa que, mesmo depois de avanços importantes, a remuneração docente correspondia a 85,2% da média dos demais trabalhadores analisados.

O piso nacional do magistério, por sua vez, chegou a R$ 5.130,63 em 2026, para a jornada de referência prevista na legislação. É uma conquista importante, sem dúvida. Mas eu aprendi, depois de tantos anos de sala de aula, que salário não pode ser analisado isoladamente. É preciso falar de jornada, planejamento, formação continuada, número de alunos por turma, infraestrutura, saúde mental, tempo destinado à correção de provas e, principalmente, do segundo turno invisível que começa quando o professor chega em casa.

A própria OCDE ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. No relatório Education at a Glance 2026, apenas 22,3% dos professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental declararam satisfação com seus salários. E há outro dado que deveria preocupar qualquer pessoa que pense seriamente no futuro da educação: em 2022, 10,3% dos professores plenamente qualificados da educação básica pública deixaram a profissão no Brasil, contra uma média de 6,4% nos países da OCDE em 2024/25. Quando uma sociedade começa a perder professores, ela não está perdendo apenas trabalhadores; está perdendo experiência, memória pedagógica e gente preparada para formar as próximas gerações.

Eu poderia reclamar apenas do salário, mas seria pouco. O professor brasileiro trabalha também contra uma cultura que transformou o fracasso educacional em culpa individual. Se o aluno não aprende, pergunta-se o que o professor fez. Se a turma está desinteressada, pergunta-se o que o professor não soube motivar. Se há violência na escola, cobra-se do professor uma solução. Se a família não consegue estabelecer limites, frequentemente espera-se que a escola resolva. E, se o professor adoece, ainda aparece alguém para dizer que ele escolheu a profissão porque “gosta de ensinar”. Como se gostar de ensinar significasse aceitar qualquer condição de trabalho.

Aristóteles dizia que “educar a mente sem educar o coração não é educação”. Pode-se discutir a autoria exata dessa formulação, mas a ideia permanece poderosa: ensinar é uma atividade humana, não uma operação industrial. Edgar Morin, ao defender uma educação capaz de enfrentar a complexidade, lembra-nos que o conhecimento precisa religar saberes. António Nóvoa, por sua vez, insiste na importância da profissão docente e da construção coletiva da identidade dos professores. E Paulo Freire nos ensinou que a educação é também uma prática de liberdade. Eu, humildemente, acrescentaria: educação sem professor valorizado corre o risco de transformar liberdade em discurso de formatura.

Também não posso esquecer os próprios alunos. Tenho alunos maravilhosos, curiosos, respeitosos, capazes de fazer uma pergunta que me obriga a voltar para casa pensando nela. Mas também vejo uma geração submetida a uma avalanche de estímulos, em que o celular muitas vezes compete com o professor — e quase sempre ganha. Não é porque o professor tenha ficado menos interessante; é porque a sociedade construiu uma máquina permanente de distração. Walter Benjamin já refletia sobre as transformações provocadas pela modernidade na experiência humana. Hoje, talvez ele precisasse escrever outro ensaio: “A obra de arte na época de sua reprodução infinita no TikTok”.

E há ainda a política. Não falo de um partido específico, porque a desvalorização docente é democrática: atravessa governos, ideologias e discursos. Todos prometem colocar a educação no centro. Poucos colocam o professor no centro da política educacional. É muito mais fácil inaugurar uma obra, anunciar uma plataforma digital ou apresentar um novo programa com nome pomposo do que enfrentar questões menos fotogênicas: carreira, salário, condições de trabalho, formação e respeito profissional. Professor não rende placa de inauguração. Talvez por isso seja tão frequentemente esquecido.

A música, entretanto, às vezes consegue dizer aquilo que os discursos oficiais escondem. Leci Brandão, em “Anjos da Guarda”, canta para os professores como “protetores das crianças do meu país” e afirma que “na sala de aula” se forma o cidadão e se muda uma nação. A canção é quase uma carta de amor ao magistério — e, ao mesmo tempo, uma cobrança. Porque a própria Leci pede um “discurso bem mais feliz” para quem educa. A música foi composta como homenagem aos professores e permanece atual justamente porque a distância entre reconhecimento simbólico e valorização concreta continua enorme.

Talvez seja por isso que movimentos de valorização docente sejam tão importantes. Sindicatos, associações profissionais, entidades educacionais, universidades e movimentos sociais continuam reivindicando melhores salários, condições dignas de trabalho, formação continuada e participação dos professores nas decisões que afetam a escola. Não se trata de conceder privilégios a uma categoria. Trata-se de compreender que uma democracia que deseja cidadãos críticos precisa respeitar aqueles que ensinam a ler o mundo antes mesmo de ensinar a ler um livro.

Depois de quase trinta anos de magistério, confesso que às vezes me sinto como aquele personagem que insiste em consertar o relógio de uma casa onde ninguém mais sabe que horas são. Continuo preparando aula, corrigindo redação, procurando repertório, lendo autores, discutindo ideias, chamando a atenção, elogiando, cobrando, explicando pela terceira vez aquilo que já expliquei duas vezes. Continuo acreditando que uma boa aula pode mudar o destino de alguém. Talvez seja ingenuidade. Talvez seja esperança. Prefiro chamar de teimosia pedagógica.

O professor não precisa de estátua. Precisa de salário digno. Não precisa de homenagem uma vez por ano. Precisa de respeito todos os dias. Não precisa apenas de aplausos. Precisa de tempo para planejar, condições para ensinar, formação para continuar aprendendo e autoridade para exercer sua profissão. Quando Leci Brandão pede que batam palmas para o professor porque ele merece, eu penso que as palmas são bonitas, mas não pagam as contas, não reduzem uma jornada exaustiva, não compram livros e não substituem políticas públicas. Aplauso é reconhecimento; valorização é compromisso.

E talvez esta seja a maior ironia de todas: o Brasil quer professores capazes de formar leitores, escritores, cientistas, médicos, engenheiros, artistas, jornalistas, juízes, empresários e políticos, mas ainda parece esquecer que todos eles, um dia, passaram pela mão de um professor. Eu mesmo poderia dizer que ensinei milhares de alunos ao longo da vida. Alguns talvez nem se lembrem de mim. Outros certamente se esqueceram das regras de colocação pronominal, das orações subordinadas ou daquela redação que corrigi pela terceira vez. Mas espero que tenham levado alguma coisa maior: a coragem de pensar. Porque, no fim das contas, é isso que um professor tenta fazer quando entra em sala de aula: acender uma pequena luz na cabeça de alguém. O problema é que uma sociedade que economiza na luz acaba, cedo ou tarde, vivendo no escuro.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.